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A Guerra está declararada


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Publicado em 12 de Outubro de 2011

A Guerra está declararada, França, 2011, Valérie Donzelli

 

Uma questão que aflige o cinema contemporâneo é, ao mesmo tempo, o desejo e o medo de ser contemporâneo. Uma das maiores virtudes do cinema enquanto arte é a grande capacidade, mesmo quando é um filme de ficção, de documentar o determinado momento em que ocorrem as filmagens. Mesmo que seja um filme histórico, pode-se ver como era a técnica utilizada naquele tempo para a construção de cenários, qual era o tipo físico dos atores, etc. Todo filme é um documentário. A guerra está declarada poderia ser um filme interessante sobre uma França, que, em 2011, vive sérios problemas sociais e econômicos, assim como toda a Europa. Mas o filme foge de qualquer discussão sobre a França contemporânea, situando o início de sua narrativa no ano de 2003, quando os EUA declararam guerra ao Iraque.

E por que o filme procede dessa maneira, evitando a discussão de uma França contemporânea, ao mesmo tempo em que deseja ser contemporâneo em sua encenação? Porque o filme não deseja mais nada além de mostrar o quanto pode ser esperto e divertido, mas nunca inteligente e potente. A guerra está declarada trata de um problema sério de saúde, o câncer. Mas nunca se sente, durante o filme, o verdadeiro pathos atravessado por quem sofre desta doença terrível, assim como o de seus familiares. O câncer só existe como adereço dramático para o filme mostrar uma série de planos absolutamente tolos, nos quais desfilam personagens que, em momento algum, conseguem emocionar o espectador, mesmo em se tratando de um tema, há que se convir, sobre o qual não se fica indiferente.

Algum nível de empatia com o espectador é alcançado somente nos raros momentos em que a diretora abandona sua pretensão de ser contemporânea e moderna (como no ridículo plano em que a mãe da criança – a própria diretora Valérie Donzelli - sai correndo em desespero pelo hospital, a câmera começa a tremer e surgem jump cuts absolutamente sem propósito) passando a se concentrar em mostrar os encontros dos pais da criança com os médicos. São momentos nos quais o drama daquela situação consegue transparecer para o espectador. Mas tal esforço é demais para a diretora, afinal, filmar assim qualquer um faz. E logo voltam as cenas e planos nos quais ele busca demonstrar o quanto é descolado, como na sequência em que o casal procura esquecer sua dor brincando num parque de diversões.

Se tudo Em a guerra está declarada parece gratuito, visando apenas o efeito de soar como um filme moderno, leve, divertido, mesmo ao tratar de um tema sério como o câncer e que somente consegue ser fútil, ao menos para uma coisa talvez sirva esse filme que, bem a propósito, vai representar a França na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro: servir como poderosa terapia contra um tipo de cinema que confunde o significado da palavra contemporâneo.

 

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