Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Bonsái

Bonsái


Por

Publicado em 11 de Outubro de 2011

Bonsái, Chile/AR/PT/FR, 2011, Cristián Jimenez

 

É com bastante desapontamento que notamos que o chileno Bonsái (2011) é um retrocesso da atual cena do cinema latino-americana. Apesar de a temática não ser política e tentar timidamente usar certos recursos modernos de narrativa cinematográfica, tais como flashbacks paralelos e metalinguagem, o filme de Cristián Jiménez não consegue ultrapassar os estigmas estéticos que assolaram a América Espanhola nos anos de 1980 e 1990. Mesmo assim, a produção recente dos países de língua espanhola da América Latina – particularmente a do México e a do Mercosul – apresentam uma nova tendência: rejeitam os lugares-comuns melodramáticos e maniqueístas típicos tanto da literatura como do cinema feito nesses países nos períodos mencionados. Na última década, surgiu uma nova geração de diretores que mudou a cara da produção latino-americana.

Na Argentina, destacam-se Nove Rainhas, de Fabián Bielinsky; Plata Quemada, de Marcelo Piñeyro, e O Pântano e A Menina Santa, de Lucrecia Martel, que inovou com seu realismo seco e mórbido. Também é simbólico o oscarizado O Segredo de seus olhos (Juan José Campanella) que, apesar de ter como temática a ditadura, propõe uma abordagem completamente diferente da geração 1990. No México, E Sua Mãe Também (Alfonso Cuarón) e Amores Brutos (Alejandro Gonzalez Iñarritu) fizeram com que cineastas mexicanos passassem a ser contratados por grandes estúdios de Hollywood e da Inglaterra para produções do primeiro escalão (21 gramas e Babel, dirigidos por Iñarritu, e o inglês Children of Men, dirigido por Alfonso Cuarón). E agora até países pequenos e de pouca expressão internacional como o Uruguai lançam filmes inovadores, tais como Gigante, O Banheiro do Papa e La Redota.

Voltando a Bonsái. Seu argumento tinha tudo para dar certo, mas não funcionou como deveria. Acompanhamos dois momentos na vida de Julio, um escritor sem reconhecimento em seus vinte e muitos anos: o primeiro, quando ele era um jovem estudante de Letras em uma universidade do interior do Chile e, oito anos mais tarde, já um homem feito e residindo em Santiago, a capital chilena, onde trabalha como livreiro e, ocasionalmente, revisor literário. Um famoso escritor mais velho chamado Gabriel Gazmuri contrata Julio para que o ajude a transcrever seu novo livro de seus blocos de anotações para o computador. Já aí um típico clichê utilizado em filmes hispano-americanos do passado. Gazmuri esnoba Julio por este não escrever a mão, e sim no computador, o que é considerado um demérito, pelo fato de o computador ser um artifício “moderno”, “mecânico”, e por tanto, inferior enquanto ferramenta para a escrita.

“Há uma pulsação entre a esferográfica, o punho e o cotovelo apoiado na mesa que faz com que o relato literário tenha vida!”, arremata Gazmuri a certo momento, em uma lamentável manifestação de ufanismo tradicionalista que por muito tempo se cultivou entre os hispânicos. O moderno, proveniente da industrialização trazida pelos norte-americanos, deve ser, sempre que possível, enxovalhado. Então, se é para ser tradicionalista, pergunto a mim mesmo: por que é que não voltamos a escrever talhando pedras, como os egípcios, os gregos e os romanos da Antiguidade faziam?

O filme está repleto de clichês deste tipo. Mas o pior não é isso. A nosso ver, parece que Jimenez meteu os pés pelas mãos ao introduzir os dois momentos da vida de Julio – na faculdade e na vida adulta – em formas paralelas. E, também, ao anunciar no início do filme, que, no fim da história, Julio vive, mas Emilia, seu amor dos tempos de faculdade, morre. É um início que surpreende, verdade seja dita, pois já prenuncia uma história de amor que acaba em tragédia. E também porque é uma ótima maneira de começar contando uma tragédia. O problema é que, mais uma vez, esse que seria o fio condutor da história não é explorado. Os dois momentos da vida de Julio, narrados paralelamente, apenas o mostram em seu cotidiano de muita literatura e sexo com Emilia nos tempos de estudante, e de seu trabalho como revisor do texto de Gazmuri e sexo com Blanca, sua vizinha e amante e, de certa forma, “colega”, porque trabalha como tradutora de inglês e tem umas ideias ótimas como a de ler as instruções de um aquecedor a gás que ela está traduzindo para ganhar uns trocos em forma de poesia eliottiana. Blanca não é uma mulher que ele realmente ama, mas é uma boa companheira, uma mulher bonita etc.

Isso é já uma coisa que me incomoda nesses filmes latinos, principalmente os argentinos. O cara nunca é um corno. Não existem cornos, na ficção hispânica, de uma maneira geral. Não existe um Dom Casmurro, por exemplo. Um anti-herói filho da puta. Com a exceção de um Gastón Pauls em Nove Rainhas, talvez. Procurem e verão.

Julio não é um corno, entendem? Julio é amado. Ele é sempre amado. O filme termina com ele perdendo sua amada que ele não vê há anos. Ele sabendo que ela se suicidou. Mas não existe um porquê. O que houve entre eles que nunca mais se falaram? Ela o traiu? Ele a traiu? Ou sei lá, algo ainda mais metafísico. A certa hora o narrador diz que eles brigaram logo depois de ler um conto de Macedónio Fernandez. E há uma flor envolvida no meio.

Há, sim, um negócio com plantas (visto o nome do filme). Tanto no misterioso fim do namoro com Emilia e no momento em que Julio está prestes a descobrir que Emilia se suicidou, ele está aprendendo a cultivar bonsais, porque o nome do livro de Gazmuri é Bonsái. A história de Gazmuri é morbidamente próxima à história de Julio, um homem que perde sua amada, outra ótima sacada que eu achei mal explorada. Gazmuri é somente introduzido no início, e depois desaparece, porque ele demite Julio, já que achou que faz o trabalho mais barato. Mas Julio permanece fazendo o trabalho, porque ele não quer decepcionar Blanca, que acredita muito nele.

Enfim, é esse círculo vicioso do início ao fim. Um pedaço de vida muito interessante e recortado, mas que pecou por muito sentimentalismo e correção política.

 

Trailer de Bonsái:

YouTube Preview Image

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2011



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

28 de Outubro de 2019

                            Em 2020, o Internacional Uranium Film Festival comemorará uma década. O evento é o único no país dedicado a expor e debater o invisível mundo atômico e seus riscos radioativos. Em quase uma década, o festival reuniu produções cinematográficas de vários […]

Por Revista Moviola

19 de Outubro de 2019

              O longa-metragem Fendas apresenta uma protagonista mulher e paisagens, sons e imagens que envolvem seu trabalho num centro de pesquisas no Rio Grande do Norte. Seus objetos de pesquisa e seu cotidiano se mesclam. A personagem, uma cientista do campo da física, captura imagens de pessoas à distância. […]

Por Marcella Rangel

22 de Março de 2019

Se7en (1995) é o segundo filme do diretor David Fincher, no elenco, Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow e Kevin Spacey na pele de um serial killers dos mais interessantes do cinema. O filme conta a história de David Mills (Pitt) e sua mulher, Tracy (papel de Paltrow), o casal esta de mudança mudaça para […]

Por Revista Moviola

20 de Março de 2019

Nos arredores de Orlando, na Flórida, em hotéis e complexos de quinta categoria – com imitações plastificadas de atrações dos parques tão próximos da Disney – são oferecidas estadias para turistas que querem economizar, como também servem de moradia, não oficial, para famílias americanas de baixa renda. Projeto Flórida (2017) é povoado por estes personagens, […]

Por Revista Moviola

15 de Março de 2019

O filme Encantada (2007) conta a história da princesa Giselle (Amy Adams), que mora no reino de Andalasia. Certo dia, após cair em um poço, ela vai parar na cidade de Nova Iorque. Lá encontra Robert (Patrick Dempsey), um procurador e se hospeda no apartamento dele. Edward (James Marsden), o príncipe de Andalasia, também cai […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio ficção filme Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Odeon Oscar Poemas Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.