Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Um método perigoso

Um método perigoso


Por

Publicado em 9 de Outubro de 2011

Um método perigoso, Canadá, 2011, David Cronenberg

Uma FALA que se costuma ouvir repetidas vezes diz respeito às diferenças entre teatro e cinema. O cinema, para reivindicar seu status de arte, procurou, em seus primórdios, deixar claras suas diferenças em relação ao teatro. O cinema buscava a natureza específica de sua expressão artística e, para isso, quanto menos fosse reconhecida nele a presença de outras manifestações artísticas, mais a sua existência como arte, e não como atração de feira, seria reconhecida.

Contemporânea ao surgimento do cinema, a psicanálise buscava, em meio ao panorama positivista da medicina e da ciência na virada do século XIX para o XX, a posição de uma disciplina autônoma e respeitável cientificamente.Tratar pacientes pela terapia da palavra, e não somente por remédios. E a palavra era a grande ausente daquele cinema dos primórdios, manifestando-se somente através das cartelas que ajudavam a conduzir a narrativa de muitos filmes mudos.

Um método perigoso entende como o cinema pode promover a união harmoniosa da palavra com a imagem em movimento, a partir de uma concepção teatral do espaço cênico de um filme. A câmera, no filme, basicamente repete quase sempre a mesma operação: filmar dois personagens que conversam. Seja enquanto Jung (Michael Fassbender) trata sua paciente predileta, Sabina Spielrein (Keira Knightley), seja enquanto ele troca ideias com o pai da psicanálise, Freud (Viggo Mortensen), a câmera não executa quase nenhum movimento. Mas deixa transparecer, desde o início, nos jogos de campo-contracampo, a distância existente entre Freud e seu discípulo.

Os corpos, tema caro ao cinema de Cronenberg, são secundários neste filme. O que domina a cena são as conversas sobre as teorias psicanalíticas e as sessões de análise. O corpo que mais chama a atenção no filme surge no início da narrativa como um corpo histérico, que caberá a Jung tratar. Quando ocorre o encontro entre os corpos de Jung e de sua paciente predileta, nas relações sexuais entre eles, a peculiaridade das situações faz lembrar os personagens marginais de Crash. Se a base da teoria freudiana está fundada na questão sexual, posição com a qual Jung discordava, o filme mostra o sexo, para Jung, como um território de culpa e hipocrisia. Se a presença do psicanalista libertino Otto Gross (Vincent Cassel) ajuda a liberar um pouco o corpo de Jung de sua culpa, ela nunca irá abandonar sua expressão tensa durante a narrativa, em oposição a um Freud confortável com sua posição de judeu pequeno-burguês.

Se a palavra, base do teatro, e a imagem em movimento, base do cinema, podem andar juntas sem problema algum, isso já havia sido demonstrado pelos filmes de Eric Rohmer e Manoel de Oliveira, nos quais longas conversas entre dois personagens são o que mais se vê em cena. E agora por David Cronenberg, cineasta que era muito mais vinculado a um cinema da ação que da palavra.

 

Trailer:

YouTube Preview Image

 

Sessões de Um método perigoso (A dangerous method) | Festival do Rio

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2011



2 Commentários sobre 'Um método perigoso'

  1.  
    Gi

    10 Outubro, 2011| 5:43 pm


     

    uma versão diferente, com outra lente.

  2.  
    lu

    11 Outubro, 2011| 8:21 pm


     

    pelo visto foi-se o velho e cultuado (no meu caso idolatrado) Cronemberg dos tempos de Gêmeos, Crash e Existenz, mas ainda sim um Cronemberg e vou lá conferir…

Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

28 de Outubro de 2019

                            Em 2020, o Internacional Uranium Film Festival comemorará uma década. O evento é o único no país dedicado a expor e debater o invisível mundo atômico e seus riscos radioativos. Em quase uma década, o festival reuniu produções cinematográficas de vários […]

Por Revista Moviola

19 de Outubro de 2019

              O longa-metragem Fendas apresenta uma protagonista mulher e paisagens, sons e imagens que envolvem seu trabalho num centro de pesquisas no Rio Grande do Norte. Seus objetos de pesquisa e seu cotidiano se mesclam. A personagem, uma cientista do campo da física, captura imagens de pessoas à distância. […]

Por Marcella Rangel

22 de Março de 2019

Se7en (1995) é o segundo filme do diretor David Fincher, no elenco, Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow e Kevin Spacey na pele de um serial killers dos mais interessantes do cinema. O filme conta a história de David Mills (Pitt) e sua mulher, Tracy (papel de Paltrow), o casal esta de mudança mudaça para […]

Por Revista Moviola

20 de Março de 2019

Nos arredores de Orlando, na Flórida, em hotéis e complexos de quinta categoria – com imitações plastificadas de atrações dos parques tão próximos da Disney – são oferecidas estadias para turistas que querem economizar, como também servem de moradia, não oficial, para famílias americanas de baixa renda. Projeto Flórida (2017) é povoado por estes personagens, […]

Por Revista Moviola

15 de Março de 2019

O filme Encantada (2007) conta a história da princesa Giselle (Amy Adams), que mora no reino de Andalasia. Certo dia, após cair em um poço, ela vai parar na cidade de Nova Iorque. Lá encontra Robert (Patrick Dempsey), um procurador e se hospeda no apartamento dele. Edward (James Marsden), o príncipe de Andalasia, também cai […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio ficção filme Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Odeon Oscar Poemas Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.