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Attack the Block


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Publicado em 9 de Outubro de 2011

Attack the Block, Reino Unido/França, 2011, Joe Cornish

 

E se a invasão alienígena acontecesse no gueto? Algumas vezes, é possível que um filme de ação completamente maniqueísta possua uma dramatização interessante, fazendo graça com os próprios clichês que costumam permear esse estilo cinematográfico. Quentin Tarantino e, ainda antes dele, Alex Cox nos ensinaram isso, quando começaram a realizar filmes policiais, de invasões alienígenas, de artes marciais, mafiosos, etc. com constantes tiradas de humor negro e sarcasmo, ao longo da história.

Ao mesmo tempo, esses diretores do fim dos anos 80 e início dos 90 conseguiram dar à trama do filme um aspecto nunca antes explorado em filmes de ação (com a exceção dos de guerra), ao elaborar inteligentes diálogos e “viradas de mesa” que preenchiam e davam sentido às cenas de tiroteio ou de lutas de karatê. Filmes como Cães de aluguel, Repo Man e Pulp Fiction foram, a cerca de vinte anos atrás, os pioneiros desse tipo de cinema, que segue cada vez mais popular até os dias atuais. De uns tempos para cá, os filmes de Tarantino já não possuem o viço que costumavam ter, porém diretores mais jovens seguiram seu caminho, tais como Robert Rodriguez e o inglês Guy Ritchie.

Na Inglaterra, especificamente, o método pulp fiction de realizar filmes de ação se tornou imensamente popular nos últimos tempos, ao ponto de Guy Ritchie ser o encarregado dos filmes da última franquia cinematográfica do detetive Sherlock Holmes – a que tem Robert Downey Jr. no papel-título, e que tem suscitado inúmeras críticas dos puristas, pelo fato de o detetive de Baker Street ser pintado de uma maneira deveras “tarantinesca”.

Attack the Block, do estreante Joe Cornish, é o mais recente exemplar dessa tendência britânica. Na história, Brixton, o distrito da Zona Sul de Londres famoso pela forte presença de imigrantes afro-caribenhos e africanos, pela cultura do ska, do dub e do drum’n’bass, e, menos afortunadamente, pela alta taxa de violência causada por gangues de adolescentes marginalizados, é atacado por uma chuva de alienígenas na Noite de Guy Fawkes. Os fogos de artifício do tradicional feriado nacional inglês se confundem com os cometas que trazem os aliens para a superfície terrestre, impossibilitando o alerta às autoridades da segurança britânica. As únicas pessoas vagamente capacitadas para combater os extra-terrestres são justamente um dos inúmeros bandos de garotos marginalizados das cercanias.

Biggz, Pest, Dennis, Jerome e seu líder Moses têm o grande azar de matarem o primeiro dos aliens que desce ao Planeta Terra – uma fêmea no período fértil que estava sendo perseguida pelos machos semeadores, como mais tarde Brewis, um estudante de biologia e maconheiro cliente do mesmo traficante que o dos garotos, vai descobrir. Pelo fato de os garotos estarem inundados com o cheiro da fêmea que mataram, os alienígenas machos perseguem somente a eles, fazendo com que a invasão extra-terrestre se limite ao gueto.

E esse é o elemento mais inteligente da trama. Quando uma invasão alienígena acontece no gueto, as autoridades nacionais se mobilizam todas para, conjuntamente, expulsarem os invasores do planeta?

É claro que não. O filme deixa bem claro do início ao fim que, se a invasão acontece em bairro de pobre, dificilmente o resto da cidade e do país se dão conta.
Além dos extra-terrestres, Biggz, Pest, Dennis, Jerome e Moses têm que enfrentar a própria polícia, que os perseguem por eles terem assaltado Sam, uma jovem enfermeira que mora no mesmo bloco de habitação popular que os garotos (O nome do filme é por isso: Attack the Block significa “Ataquem o Bloco”), além de Hi-Hatz, o chefe do narcotráfico da área, que quer matar Moses por este ter perdido um papelote de cocaína que o gângster lhe confiou e também pelos garotos, na cabeça de Hi-Hatz, serem os responsáveis pela invasão alienígena, já que trouzeram o cadáver da fêmea para dentro do Bloco.

Moses e seu bando contam somente com a ajuda de Sam – a mulher assaltada por eles no começo do filme, que primeiro os rechaça pelo assalto, até perceber que agora todo o Bloco têm um inimigo maior, de Probs e Mayhem – dois garotos menores da área que um dia sonham em ser da gangue de Moses, de Ron e Brewis – o traficante e o estudante de biologia, que costumam assistir National Geographic na “sala do fumo”, a estufa onde Ron cultiva seus pés de maconha à base de raios ultra-violeta, e onde o cadáver da fêmea alienígena foi escondido e, finalmente, da própria astúcia.

O filme nos traz um novo prisma, ainda que a partir de diálogos primários, ao colocar assaltantes de mulheres indefesas como heróis do planeta. Apesar de que, evidentemente, esse não é o objetivo da história. Como foi dito no início, trata-se apenas de um filme de ação “tarantinesco”, onde não existe mocinho ou bandido: todos têm o rabo preso, e o que importa mesmo são as situações de humor sarcástico e as viradas de mesa da trama. Nesses quesitos, Joe Cornish não deixa nada a dever a seu conterrâneo Guy Ritchie ou ao americano Robert Rodriguez.

Último mas não menos relevante, não custa salientar que Cornish e os roteiristas conseguem dar uma certa verossimilhança ao fato de garotos adolescentes conseguirem derrotar extra-terrestres. Primeiro porque os garotos são marginalizados e, portanto, tem uma boa experiência em brigas de rua e até com armas brancas, de fogo e carros. E segundo porque os alienígenas são, na verdade, animais seguindo seu ciclo reprodutivo, e não um exército de seres intelectual e tecnologicamente superiores à raça humana. Animais perigosos, com imensa agilidade e mandíbulas brilhantes, mas que morrem a simples tiros de revólver, facadas na cabeça e se assustam com fogos de artifício.

 

Veja o trailer aqui:

YouTube Preview Image

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2011



1 Commentário sobre 'Attack the Block'

  1.  
    anna

    9 Outubro, 2011| 10:36 pm


     

    fiquei com vontade de ver!

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