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A pele que habito


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Publicado em 8 de Outubro de 2011

A pele que habito, Pedro Almodóvar, Espanha, 2011

No novo filme de Pedro Almodóvar, dois aspectos chamam atenção: o corpo e a identidade. Ambos são aspectos recorrentes na filmografia de Almodóvar. Só lembrar de seu brilhantismo ao filmar os corpos desnudos de seus atores fetiches. Victoria Abril, Antonio Banderas, Penélope Cruz. E as narrativas que filmou nas quais a questão da identidade aparece como elemento decisivo (Tudo sobre minha mãe, Labirinto de paixões e outros ). Em A pele que habito, Almodóvar retoma a parceria com Antonio Banderas, interrompida após Ata-me, de 1990. A narrativa é centrada na história do Dr. Ledgard (Banderas) um cirurgião plástico cuja abordagem da medicina lembra muito mais a de um artista de vanguarda, que deseja fundar novíssimos caminhos para a arte a que se dedica, do que a de um médico, cuja primeira preocupação deve ser a de não causar dano a ninguém.

Mas Ledgard deseja ser tão inovador como médico quanto Almodóvar como cineasta. Para isso, ele irá transformar, com sua habilidade cirúrgica, um corpo em outro totalmente diferente, assim como um cineasta, através da luz que filtra com sua câmera, transforma os corpos de seus atores em um filme. No entanto, o que Ledgard esquece, ou não faz questão de se lermbrar, é que uma cirurgia não é como um filme, no qual o efeito da transformação dos corpos pela luz termina assim que as luzes da sala de cinema se acendem. Seu objetivo é a transformação perpétua de um corpo em algo novo, o qual poderá vir a suprir ausências com as quais ele não consegue lidar.

Almodóvar traz o melodrama para a narrativa do gênero dos filmes de horror, o que provoca estranheza a um público acostumado a fronteiras bem definidas no que diz respeito à gramática dos gêneros cinematográficos. Mas é um erro confinar A pele que habito dentro dos limites precisos de um gênero. Almodóvar está mais interessado em ampliar as fronteiras de seu próprio cinema, buscando novos territórios nos quais as questões que alimentam sua arte possam ser abordadas, do que em realizar um exercício de gênero no qual ele precise respeitar regras restritivas da narrativa.

O domínio narrativo de Almodóvar neste novo filme, passado em grande parte na mansão do Dr Ledgard, na qual ele tem sua clínica e mantém preso durante anos o novo corpo que criou, traduz-se na virtuosidade com que sua câmera narra a loucura crescente que toma conta da vida do médico. Nos dias de hoje, poucos diretores conseguem realizar um cinema que busca um contato forte com a narrativa clássica hollywoodiana com a inventividade e a serenidade de Almodóvar. Sua câmera sabe a exata medida da proporção de dramaticidade em cada cena, resultando no efeito devastador que é o clímax do filme. Em tempos de imposturas cinematográficas várias, Almodóvar mostra que é preciso humildade para ser um grande artista.

Veja cenas aqui:

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Sessões da Pele que habito (La piel que habito) | Festival do Rio

DOM (9/10) 14:00 Roxy 3
DOM (9/10) 19:00 Roxy 3
SEG (10/10) 17:00 Estação Sesc Rio 1
SEG (10/10) 21:30 Estação Sesc Rio 1

 

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2011



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