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Blu, sarcástico e apocalíptico


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Publicado em 26 de Junho de 2011

 

O diferencial em Blu não é o fato de ele ser um muralista político. Até porque, desde os tempos mais antigos da humanidade e de sua produção cultural, a arte de pintar, desenhar ou escrever em muros tem uma finalidade primordialmente política. O próprio fato de ser uma arte ao ar livre, em um espaço público, já aponta para essa inevitável conotação. Um local aberto é exposto a todos, e é também mais acessível para quem precisa driblar a censura. Portanto, nada há de especial no fato de o italiano Blu, de identidade verdadeira desconhecida (outra característica comum entre muralistas), supostamente nativo de Bolonha e ativo desde 1999, compor arte mural de natureza essencialmente militante em causas sociais, tais como o desarmamento, o ambientalismo, combate à corrida nuclear, a paz, o feminismo etc.

O que há de especial é a maneira como ele faz, por toda a Europa e por todo o mundo, suas enormes pinturas e intervenções urbanas. O trabalho chama a atenção pelo tamanho e pela genialidade de suas ideias para passar as mensagens. Assim como Banksy, seu colega inglês mais famoso, os murais de Blu são sarcasticamente apocalípticos, como se das suas intervenções saíssem dedos enormes que vêm apontar nos nossos rostos e nos culpar por não estarmos fazendo nada para melhorar o mundo. Mas, para além de Bansky, podemos dizer que Blu atingiu um novo patamar na arte de intervir no espaço urbano, que é o de resgatar uma estética grotesca que foi, provavelmente, vista da última vez somente emHyeronimus Bosch, há quinhentos anos.

 

A desativada fábrica Hangar – no bairro industrial de Bicocca, em Milão – fabricava bobinas elétricas para sistemas ferroviários, até que foi tornada museu de arte contemporânea por seus proprietários. Entre diversas instalações de nomes renomados do cenário artístico internacional, existe uma parede que foi grafitada inteiramente por Blu. As imagens da parede pintada para a Hangar são típicas da arte muralista: tanques de guerra bombardeando algo. Uma larga fileira de máquinas, marchando atrás de seu alvo invisível para os olhos de quem assiste. O detalhe que faz toda a diferença é de que os interiores dos tanques podem ser vistos, como se todos eles estivessem sendo submetidos a uma tomografia de raios-X. Dentro das máquinas, a surpresa: os pilotos que estão comandando os tanques não são soldados, mas civis! E mais do que isso, gordos e pacatos civis, em suas tediosas atividades cotidianas, tais como casais que assistem TV, crianças que jogam vídeo-game, funcionários de escritório que trabalham com seus PCs, e assim por diante. Os botões de controle e operação dos tanques são sempre correspondentes às telas de televisão e computador controladas pelos civis que, portanto, comandam o disparo dos canhões dos tanques assim que matam uma nave alienígena no Play Station, ou quando trocam de canal. Há também tanques destruídos por alguma bomba inimiga (como costuma acontecer nas guerras). O interior dos tanques destruídos, nesses casos, se assemelha à destruição das casas de civis inocentes dessas mesmas guerras. Blu escolheu uma excelente imagem para dizer que quando destruímos o outro, destruímos nós mesmos.

Em outro mural – pintado nas paredes do Tate Modern de Londres e parte de uma exposição de arte de rua promovida pela instituição que teve também a participação dos paulistanos Nunca e Os Gêmeos – Blu fez outro de seus trabalhos ao estilo “a-destruição-e-a-miséria-são-culpa-de-todos-inclusive-você!”: uma enorme cabeça branca repartida ao meio (veja detalhes aqui), com uma expressão de agonia semelhante a do Grito, de Edvard Munch. O ponto onde a cabeça está repartida corresponde geometricamente à parede do Tate Modern e, aqui, outra excelente brincadeira usando o método do “raio-X”: o interior da agonizante cabeça coincide com o interior do prédio, onde são representadas imagens de escritórios comerciais, povoados não só por homens de negócio e tecnocratas, mas também por toda a espécie de gente que faz com que o mundo fique pior, ou pelo menos, não melhore. Aqui a influência já mencionada de Bosch é explícita. Os fictícios escritórios comerciais do interior do Tate Modern se transformam em uma espécie de Jardim das Delícias dos tempos modernos, onde ao mesmo tempo em que homens de negócios vão e vêm, sobem e descem escadas, pode-se notar a presença surreal de terroristas, pessoas tomando banho de chuveiro, repórteres de TV fazendo externas, canhões e mísseis atômicos no mesmo local em que executivos fecham um negócio, um homem defecando em uma sala de vídeo-conferência lotada, outro no canto da sala, de costas, com chapéu de burro, etc.

O mundo de Blu é infestado de seres grotescos, mutantes geneticamente modificados. São comuns motivos como cobras com cabeças humanas saídas de um grande ovo com o símbolo nuclear, ou um homem com escamas debaixo de chuva ácida. Como disse, o diferencial em Blu não é o fato de ele ser um muralista político. O diferencial em Blu é o fato de ele ser um muralista barroco. Um arauto do verdadeiro apocalipse, o nuclear, que não mede esforços para externar (literalmente) todos os seus fantasmas e monstros mais metafísicos. Os dele e os de todos nós.

 

 

Guilherme Mazzocato é  gaúcho e formado em história pela UFRGS. Mantém o blog Mero Colibri e voltou a morar no Rio de Janeiro, onde encontra inspiração e amigos no jazz das quartas na Lapa. Atualmente, trabalha como redator publicitário.



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