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Não se pode viver sem amor


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Publicado em 8 de Junho de 2011

Jorge Durán é senhor de um cinema único no Brasil. Não se pode viver sem amor, seu último filme, é uma espécie de filho sem irmãos; um filme que dialoga com outros da produção recente brasileira, mas que o faz de uma posição sem possíveis comparações. À época do lançamento do seu filme anterior, o belíssimo Proibido Proibir, escrevi que aquele longa-metragem parecia ter sido filmado em outro tempo. Justamente por não se parecer um filme típico daquele momento. O ano era 2007. Algo semelhante acontece hoje sobre o recente Não se pode viver sem amor.

Agora Durán nos propõe uma relação muito diversa da qual estamos acostumados com o nosso cinema. Seu novo longa-metragem é um filme de amor com fortes pitadas de realismo fantástico.

Não se pode viver sem amor conta a história de cinco pessoas que se encontram ao acaso, às vésperas do natal, na cidade do Rio de Janeiro. São elas: Pedro, um pesquisador universitário que no dia 23 de dezembro tem seu pai morto, é assaltado e mantido como refém; João, advogado desempregado em desespero; Gilda, uma prostituta que pretende sair da cidade em busca de outra vida; além de Gabriel, uma criança de dez anos que chega no Rio de Janeiro em procura de seu pai. Gabriel vem acompanhado por Roseli, uma mulher de 30 anos que o ajuda nessa busca.

É nos arredores da praça Mauá onde se passa grande parte do filme. À exemplo do que ocorreu em Proibido Proibir, Durán escolhe aqui enquadrar um Rio de Janeiro pouco visto, quase que completamente desconhecido do grande público. É algo que só acentua essa noção de um cinema único. A geografia aqui será o vórtice desses encontros, o local onde as expectativas desses personagens se confluirão.

Se há um protagonista neste filme, este é o papel de Victor Navega Motta. Ele faz Gabriel, a criança que tenta encontrar o pai que não conhece. Gabriel é a força motriz do filme, é por causa dele que muitas coisas bonitas e estranhas acontecem. É um personagem que parece saído do livro Cem anos de solidão, do nobel Gabriel García Márquez. Isso porque ele provoca tempestades ou coisas ainda mais inacreditáveis com a simplicidade e a ingenuidade que só as crianças são capazes. Gabriel é a porção do roteiro que nos faz entender o quão improvável é o amor, mas que ao mesmo tempo nos diz o quão belo e quão necessário é. Amar é um ato de fé no Homem.

Cauã Reymond interpreta João, o advogado que – embora não tenha um tostão -, quer tirar Gilda (Fabiula Nascimento) da prostituição. E ela quer ser “salva”, mas está presa às amarras típicas: falta de dinheiro, dívidas etc. João, assim, cometerá um crime em nome do amor. Pedro (Ângelo Antônio), é a vítima ocasional. Ele só estava no lugar errado, na hora errada. E então, por ordem de acontecimentos às vezes banais, às vezes nem tanto, todos esses personagens se encontram para darem um rumo diferente às suas vidas.

Não se pode viver sem amor é um filme que trata seus personagens com dignidade. Embora seja um filme que em muito toca na questão da violência urbana, não há movimentos simplistas, intenções falsas ou mesmo pré-julgamentos de caráter. É raro um filme brasileiro, sobretudo carioca, que olhe com tanta candura para aqueles que seguram as armas.

É preciso amor.

 



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