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Academia de Boxe


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Publicado em 8 de Abril de 2011

Frederick Wiseman necessita de apenas três planos para situar a ação: o céu da manhã, as folhas das árvores e a escultura do lutador de boxe. Estamos em algum lugar do Texas (certamente, não em Houston). Mas a localização exata não importa – o dono não faz propaganda da academia, e seus clientes têm dificuldades para encontrá-la -, pois o cineasta mergulha no universo mais íntimo do boxe, que se treina na Lord’s Gym (trocadilho com o romance Lord Jim, de Joseph Conrad).

Após os planos iniciais, Wiseman entra na academia e a destrincha. Embora filme ao longo de semanas, a montagem cria a ilusão de que tudo se passa em único dia, da manhã à noite. Lord’s Gym está aberta a qualquer hora do dia e, salvo a taxa de admissão de 50 dólares, não há fichas, crachás ou outras burocracias. Mulheres e homens; jovens, adultos, idosos e crianças; brancos, negros e hispânicos; amadores e profissionais treinam juntos, compartilham dicas e experiências e recebem tratamentos idênticos. É o máximo da democracia liberal: serviços iguais pelo mesmo preço.

A câmera de Wiseman perscruta os espaços da academia. Vemos o ringue de boxe, os sacos de areia remendados com fita, o escritório de Lord, o pneu em frente ao espelho, os cartazes de lutas célebres e de O Touro Indomável que cobrem as paredes. Através do incrível trabalho com o som, ouvimos o bailar dos pés sobre o tablado, os socos que cortam o ar, os golpes que acertam os oponentes e, sobretudo, o relógio que marca o tempo de cada período de exercício.

O mais importante, segundo um dos lutadores, é o ritmo – depois se adquire a velocidade. Ambos, ritmo e velocidade, decorrem da conjunção entre espaço e tempo (no boxe, por exemplo, entre o ringue e os três minutos de cada round). Wiseman explora os limites da academia e o toque incessante do relógio de treino que, ao funcionar como metrônomo, orquestra ruídos, coreografa movimentos e ritualiza a violência.

Os tempos do boxe e do mundo, que aparentemente correm em paralelo (pois Wiseman se restringe à academia), encontram-se na discussão sobre o massacre na universidade de Virginia Tech, quando mais de vinte alunos foram mortos. De um lado, a catarse regrada do esporte, que o aproxima do balé. Do outro, a violência bárbara e inexplicável que consome vidas.

As personagens da Lord’s Gym condenam, com veemência, os assassinatos em Virginia Tech, enquanto destacam as relações fraternais que há entre os lutadores da academia. Mas eles não sublimariam, através do boxe, os próprios instintos violentos? Todos não seriam capazes de atos extremos, de acordo com o contexto?

Academia de Boxe, 2010, de Frederick Wiseman.



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