
O Cine Belas Artes ainda vive a indecisão do seu futuro. Mas uma homenagem já está reservada ao templo do cinema de arte em São Paulo. A banda Trupe Chá de Boldo gravou o seu primeiro clipe lá. A música Bárbaro reuniu cerca de 60 amigos e voluntários do grupo paulistano, vestidos de alguma lenda do cinema de arte e também pop.
Desfilaram nas filmagens o “Il Patrone” Don Corleone de O Poderoso Chefão, Dorothy do Mágico de Oz, Scarlet O’Hara de E o Vento Levou…, a Replicante de Blade Runner, Princesa Lea de Star Wars, e tantos outros ícones como Hunter Thompson, Carlitos, a “Morte” de Ingmar Bergman, a Bonequinha de Luxo, John Travolta, Rocky Balboa, e até o Jason e Tarzan. Não faltou nem o anão de Amélie Polain.
O clipe foi gravado na madrugada de 18 de fevereiro e agora está em fase de pós-produção. Entre figurantes e personagens, estavam os 12 integrantes da Trupe, que incendeia os seus shows com composições de rock puxadas para sambas e marchinhas acompanhadas de metais e performances no palco. “A ideia foi homenagear o cinema que gostamos tanto. Sempre viemos aqui e fazia sentido pra gente nos despedirmos de algum jeito do cinema. Mandamos a sugestão para o Sturm (donos do cinema), que apoiou a ideia e liberou a gravação durante uma noite”, conta Gustavo Gallo, vocalista do grupo. (mais uma vez, o fechamento, previsto para 24 de fevereiro, foi adiado).

Um verdadeiro trabalho colaborativo se deu em menos de duas semanas para reunir tantos personagens do cinema, que impressionavam pelos detalhes e cuidados com as caracterizações. Os amigos se dividiram em equipes de produção, maquiagem e assistência. “O clipe foi no style Chá de Boldo: tudo no improviso”, define Gallo, ressaltando ainda que o vídeo já era uma cobrança antiga de fãs e amigos da Trupe. Até o momento, o grupo tinha oficialmente apenas uma filmagem de uma das suas músicas em um show ao vivo.
O diretor e roteirista do clip, o publicitário Binho Miranda, também destaca a simbologia do espaço e dos personagens do clipe no momento em que se discute o fechamento do principal espaço do cinema de arte de São Paulo. Um dos personagens colocados no roteiro para representar este momento foi a Morte de Ingmar Bergman. “O cinema de arte em São Paulo vai sobreviver, mas certamente não mais aqui no Belas Artes”, prevê. “Bárbaro é uma música que permitia um roteiro aberto. Como já tínhamos o cinema, nada melhor do que aproveitar essa mimetização dos personagens com o espaço”, explicou sobre a ideia dos personagens do cinema no roteiro do clipe.
A música Bárbaro integra o primeiro disco da Trupe Chá de Boldo. Formado há seis anos, o “Bando” como eles mesmos se definem, ocupa espaços da balada paulistana como o Studio SP e as unidades do SESC. O disco lançado em 2010 foi gravado de forma independente e é distribuído pela Tratore.
Encontros inusitados
Edward brinca com as suas tesouras, John ajeita sua jaqueta vermelha de brilhantina, Il Patrone, impecável, está preocupado com o seu terno. Carmen Miranda tenta deixar em ordem os tantos parangolés de sua cabeça. A Morte de Ingmar Bergman entra no salão principal e é aplaudida.

Era um clima de expectativa e empolgação que tomava o cinema. Tudo foi preparado em apenas duas semanas, quando souberam da liberação para gravação e correram contra o tempo do anunciado encerramento das atividades.
Acostumado aos Corujões, a noitada dentro das dependências do Belas Artes foi invertida. Lá estava o espaço que tanto recebeu os astros na tela sendo personagem. “Ação e Corta!”, só que agora do lado de fora da tela. Alguns foram cedendo ao cansaço à medida que a madrugada avançava.
Daquele noite ficou o registro de muitos “astros” batendo e de encontros inusitados enquanto aguardavam sua hora de entrar na “película”. Quer dizer, no cartão digital. Uma Penélope Cruz, atrás Balcão, arrumava cuidadosamente a Morte, de Bergman. A Bonequinha de Luxo senta ao lado do Edward Mãos de Tesoura. Chaplin faz confidências, na porta do cinema, ao vocalista Gustavo Gallo.
Após o Noitão, já passava das sete da manhã quando o diretor Binho Miranda anuncia a cena final. A Morte fecha a mão com uma peça de xadrez. O Cinema também depende no momento de uma jogada final que talvez decida o futuro de toda uma história de arte e paixão que este ano completava 68 anos.
25 Março, 2011| 5:16 pm
Belíssimo trabalho!