Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Biutiful

Biutiful


Por

Publicado em 21 de Fevereiro de 2011

O cinema andava meio asséptico. Tramas muito limpinhas, rápidas, sem profundidade. Entretenimento sempre fácil, dentro do script mais do que consolidado vindo de Los Angeles. Mas o diretor e roteirista mexicano Alejandro González Iñárritu chega para reanimar a festa. Na verdade, suja a tela de cinema com os principais dramas da humanidade concentrados em duas horas e meia de película a 24 quadros por segundo: imigração clandestina, drogas, a dissolução da família, o drama da morte iminente, a vida sempre buscada (mesmo que nas drogas), a espiritualidade, a dificuldade de ser pai e de ser mãe, de ser filho e filha, de ser família como numa propaganda de margarina com todas as suas idiossincrasias e leis freudianas, a carência do amor nunca correspondido (ou que achamos nunca ser correspondido), os mortos que insistem em não nos deixar, o samaritanismo, a piedade e a culpa cristã, a exploração e o sentido de um mundo capitalista.  Onde vamos parar? É a velha e atávica questão nunca respondida.

Iñárritu produz em Biutiful o compêndio atual da miséria humana com as pitadas da dramaticidade latina. Revela que miséria é miséria em qualquer lugar, em qualquer raça (a Barcelona dos sonhos de uma Vicky Cristina se transforma em viela de uma Cidade do México de Amores Brutos). Se torna mais miserável ainda quando se desloca, quando se perde a identidade. Ou melhor, ganham uma outra. É o Les Miserables moderno. Não poupa o que há de mais limpo, a Europa, que sonha alto, que um dia quis e ainda quer ser um mundo asséptico. Também sonham alto os imigrantes, que deixam suas terras por uma vida supostamente melhor. A escravidão “branca”, “amarela” e “negra” estão lá, embora todos sejam humanos (e se possa ser escravo em sua própria casa). Não é bem um mundo “biutiful” que encontram, morrem na praia, no suposto paraíso. O recado é: não há nenhum paraíso. Mas continuamos a sonhar com campos tranquilos de neve. Com o eterno retorno.

A máquina capitalista surge com todas as aberrações, do poder, símbolo e trocas do dinheiro, indo dos produtos Louise Viton´s falsificados ao Real Estate, que não resguarda nem mais o cemitério, o lugar sagrado de descanso dos nossos entes queridos (talvez nem tão queridos assim, dependendo da herança ou dívida deixada). E cujos corpos mortos ainda geram uma espécie de derradeira herança, da última valoração. “Você teria coragem de usar esta bolsa? Você acha que isto está suficiente bom?”, reclama um dos capatazes a uma operária chinesa sobre a qualidade de um dos produtos falsificados. Não é mesma ladainha promulgada na assepsia das salas de CEO´s e de RH´s das grandes corporações, só que em outras operações linguísticas? Nada está nada bom. Nada que não possa piorar.  Nada que não possa ser melhor.

Mas o tema central de Biutiful não é a miséria ou a exploração em nome do lucro. É apenas mera conseqüência de uma complexidade existencial. O tema central é a tal herança. O valor. Da perda, da vida, do símbolo do amor, de algo que nos liga ao passado, às origens, que nos dá o presente, da necessidade de deixar uma vida melhor para as nossas proles para que tenham uma vida cada vez melhor. Ou menos ruim. Só que isto ainda não é suficiente. A maior herança que o personagem de Javier Bardem luta para deixar, além da material, é a de um de rosto a nunca ser esquecido por seus filhos. O esquecimento é a pior morte para os mortos (e o maior erro em vida é negar a morte, deixa como uma espécie de recado a “espírita” do filme).

Porém, acredite, com toda a miséria da alma humana, que flutua e se aprisiona sob tetos, que se transforma feito mariposas, Iñárritu não é pessimista. Ele mesmo chegou a declarar que era o mais esperançoso de seus filmes (21 Gramas, Amores Brutos e Babel). O que nos sobra como esperança? Talvez um dia reencontremos os nossos entes queridos, que nos deixaram de herança a nossa vida e um mundo desterrado em nome dessa mesma herança de continuar a vida.

Trailer de Biutiful

YouTube Preview Image


Paulo Celestino da Costa, filho é jornalista e seu sobrenome, com vírgula e efe minúsculo, é uma homenagem ao escritor e também jornalista Odilo Costa, filho. Paulo vive em São Paulo e mantém o blog Internetcidade,  espaço aberto para falar de cidades, pessoas e identidades, e onde este texto foi publicado originalmente.



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

28 de Outubro de 2019

                            Em 2020, o Internacional Uranium Film Festival comemorará uma década. O evento é o único no país dedicado a expor e debater o invisível mundo atômico e seus riscos radioativos. Em quase uma década, o festival reuniu produções cinematográficas de vários […]

Por Revista Moviola

19 de Outubro de 2019

              O longa-metragem Fendas apresenta uma protagonista mulher e paisagens, sons e imagens que envolvem seu trabalho num centro de pesquisas no Rio Grande do Norte. Seus objetos de pesquisa e seu cotidiano se mesclam. A personagem, uma cientista do campo da física, captura imagens de pessoas à distância. […]

Por Marcella Rangel

22 de Março de 2019

Se7en (1995) é o segundo filme do diretor David Fincher, no elenco, Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow e Kevin Spacey na pele de um serial killers dos mais interessantes do cinema. O filme conta a história de David Mills (Pitt) e sua mulher, Tracy (papel de Paltrow), o casal esta de mudança mudaça para […]

Por Revista Moviola

20 de Março de 2019

Nos arredores de Orlando, na Flórida, em hotéis e complexos de quinta categoria – com imitações plastificadas de atrações dos parques tão próximos da Disney – são oferecidas estadias para turistas que querem economizar, como também servem de moradia, não oficial, para famílias americanas de baixa renda. Projeto Flórida (2017) é povoado por estes personagens, […]

Por Revista Moviola

15 de Março de 2019

O filme Encantada (2007) conta a história da princesa Giselle (Amy Adams), que mora no reino de Andalasia. Certo dia, após cair em um poço, ela vai parar na cidade de Nova Iorque. Lá encontra Robert (Patrick Dempsey), um procurador e se hospeda no apartamento dele. Edward (James Marsden), o príncipe de Andalasia, também cai […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio ficção filme Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Odeon Oscar Poemas Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.