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Nostalgia da Luz


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Publicado em 5 de Outubro de 2010

A narração monocórdica de Patrício Guzmán apresenta o Deserto do Atacama, no Chile, como importante região de pesquisas astronômicas e arqueológicas. A disposição das imagens é objetiva: compara o hermetismo das galáxias à poeira desértica. “Tudo o que vemos está no passado. O presente não existe”, afirma o pesquisador ao explicar a visão humana anacrônica quanto aos reflexos da luz nos objetos e a absorção desses sinais ópticos pelo cérebro. É com o depoimento de um “arqueólogo do espaço” que Nostalgia da Luz justifica sua conexão entre a busca por milhares de chilenos mortos e desaparecidos ao longo do regime de Augusto Pinochet e a incansável procura dos cientistas para a resposta sobre a origem do universo.

Sob o olhar assumido de um chileno — o voice over em primeira pessoa não esconde nenhum ressentimento —, Nostalgia da Luz aproveita as condições geográficas para ilustrar o inóspito, o ermo, o olhar vago de cada parente dos presos políticos desaparecidos. O tempo todo, o deserto é colocado como manancial de revelações acerca do passado. Outrora local de trânsito dos povos nômades e de escravidão dos mineiros no século XIX, o Atacama esconde hoje milhares de corpos de vitimas do regime ditatorial na década de 70. Simbolicamente, Guzmán concebe o paralelo entre fragmentos cósmicos e vestígios ósseos, petrificação natural e mumificação, e evolui para a associação maior entre vida e morte.

O documentário metaforiza as cicatrizes chilenas da pós-ditadura no casal de idosos Miguel e sua esposa (que observamos na tranqüilidade de um passeio). “Ele é a recordação, enquanto ela é o esquecimento, por conta de seu Alzheimer”, conta Guzmán. O diretor já resgatara o passado de seu país em outros documentários (Chile, la Memoria Obstinada, Salvador Allende, Caso Pinochet) mas, nesta redescoberta moral que é Nostalgia da Luz, aprofunda a abordagem da memória individual como elemento indissociável da construção da História coletiva.

Patrício Guzmán assina trabalho de imersão política com a propriedade de sua nacionalidade, do mesma forma que o israelense Dan Geva, em Descrição de Uma Memória, percorreu a atual Israel, atrás de resquícios que revelassem a permanência do estado de guerra no país, refazendo o trajeto de Chris Marker em Descrição de Um Combate. Os contextos, embora diferentes, convergem: trazem à tona os estigmas de uma população que vivenciou situações de risco, de caos.

Nostalgia da Luz, com título inspirado na obra do poeta e astrônomo Michel Cassé, une esperança e desespero. Seus planos estáticos encaram as pessoas (sejam simplesmente as personagens dos depoimentos ou todos os desaparecidos aos quais se refere) penetrando-lhes os olhares. Tudo para acalorar a querela de milhares de chilenos — pais, filhos, esposas, maridos. Dessa forma, Guzmán se dedica, por fim, a investigar a função de rememoração dos museus. O principal não é questionar sua utilidade, tampouco sugerir novos preceitos. Guzmán apenas clama que da barbárie ninguém se esqueça.

Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán 2010.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2010.



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