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Kedma


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Publicado em 24 de Setembro de 2010

Kadosh, Kippur – O Dia do Perdão e Kedma recuam, sucessivamente, mais e mais no tempo para mostrar a formação do Estado de Israel. Em Kadosh, no final do século XX, o impacto negativo (pois retrógrado e aprisionante) do judaísmo ortodoxo na vida de duas irmãs, microcosmo do tratamento desigual dispensado às mulheres pela sociedade israelense. Em Kippur – O Dia do Perdão, durante a Guerra do Yom Kippur em 1973, o cotidiano de dois amigos, transformados em enfermeiros, no front de batalha – em meio aos feridos, aos mortos e à lama. Em Kedma, a imigração judaica em massa da Europa à Palestina, no momento anterior à homologação de Israel pela ONU (1948), e os conseqüentes embates entre aqueles que chegam e os que lá já estão, os árabes e os ocupantes britânicos.

Estruturado em longos planos-seqüências, Kedma se inicia com as costas nuas de Rossa, a qual tenta, sem sucesso, transar com Yanush, seu companheiro, no navio que aporta – o título do filme, Kedma, refere-se ao nome do cargueiro, em citação e em homenagem a Êxodus, de Otto Preminger. Comparando o corpo feminino à Palestina, Gitaï, ao erotizar a terra, demonstra o desejo dos judeus em possuí-la, mas, com o coito interrompido, aponta igualmente para a impossibilidade de tê-la por completo. Assim, a Terra Santa constitui território hostil, amante exigente disputada por diversos parceiros: os imigrantes, os palestinos – simbolizados no idoso que, assim como seus filhos, promete sempre resistir à invasão israelense (a ausência de árabes na tela deve-se mais à preocupação do cineasta, vista em Kippur – O Dia do Perdão, em não espetacularizar a violência, do que em se colocar ao lado de Israel na disputa) – e os ingleses, cujo Protetorado indica o resquício da política imperialista, herdada do século XIX, em franca decadência com a consolidação das duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética.

Kedma é uma peregrinação. Os imigrantes judeus, que compõem grupo heterogêneo, com línguas e com crenças variadas, saem da Europa rumo à Palestina e, na Terra Santa, caminham até o kibbutz que, de fato, jamais é alcançado. Na jornada – a qual se conecta historicamente à fuga dos escravos hebreus do Egito, liderados por Moisés, à libertação do cativeiro na Babilônia e, por fim, à Diáspora forçada pelos romanos que, no ano 70 d.C., destroem o Templo de Jerusalém –, eles enfrentam tanto as tropas inglesas quanto a população árabe local – em fuga de suas terras devido à ocupação israelense em curso.

A História, e como ela deixa marcas nos indivíduos por ela atravessados. No reencontro de Rossa e Yanush, separados na praia, o casal recorda os sofrimentos passados durante o Holocausto: ela lhe diz que precisam esquecer, para continuarem, enquanto uma fogueira, em primeiro plano, teima em não apagar, apesar das tentativas. Em outra seqüência, Menachem primeiro promete eliminar os filhos de Ishmael, para logo depois se lembrar de sua própria família, assassinada pelos nazistas.

São memórias que permanecem intactas, lembranças que um povo, por mais que queira, não consegue abandonar. A sombra constante do Holocausto, do genocídio perpetrado por Hitler, que, conforme evidencia o discurso final de Yanush – o qual assume o papel de voz da consciência no filme, inútil e desesperada frente à escalada da violência –, serve para alimentar o ódio pelos árabes.

Trata-se, certamente, de questionar esta associação direta e simplista que Gitaï realiza entre os crimes cometidos anteriormente contra os judeus e o seu comportamento belicista no presente, como se a tomada da Cisjordânia e da Faixa de Gaza se resumisse à vingança de Israel contra os palestinos pelo trauma coletivo ocasionado pelo nazismo, e não envolvesse milenares disputas religiosas e culturais, bem como, mais recentemente, lutas pela posse das terras férteis, da água e pela afirmação da soberania nacional por ambas as partes, através da negação da outra. No entanto, ainda segundo Yanush, em sua longa fala em plano-seqüência, faz-se necessário parar de temer o passado e ter coragem de olhar para frente, o óbvio que árabes e judeus não perceberam, ou melhor, não querem perceber.

É, pois, a jornada inconclusa, o eterno deslocamento – os caminhões na estrada, final idêntico ao de Êxodus, aproximando Kedma em definitivo do filme de Preminger –, os quais anunciam a luta fratricida que se estende até os dias de hoje, com muito sangue e nenhum entendimento.

Kedma, de Amos Gitaï, 2002.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2010.



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