
Sob muitos aspectos, pode-se dizer que O Amor Segundo B. Schianberg não se apresenta como um filme de Beto Brant, o seu diretor. A rigor, em um olhar mais convencional, a obra nem se caracterizaria como cinema. Mas é justamente neste ponto onde está grande parte da beleza do projeto.
Concebido originalmente como uma série para a televisão, o projeto é uma espécie de reality show onde tudo é encenado. A ideia de Beto Brant (diretor de filmes como Crime Delicado, Cão sem Dono e O Invasor), foi a de trazer dois atores para um apartamento que, como no caso do seu irmão de formato – o Big Brother – teriam diversas câmeras espalhadas, flagrando a intimidade dos personagens. O casal não esteve confinado, porém. Eles viveram nesse apartamento, mas tinham a liberdade de ir e vir. A ideia era exatamente que eles trouxessem (contaminassem) com suas vivências a “história” ali observada.
Em O Amor Segundo B. Schianberg, os atores é quem são os verdadeiros autores. Mas isso não é o mais importante. O que realmente importa é o processo, é a desconstrução das pessoas e a ascensão dos personagens. Sendo um filme processo, é na elaboração desse não-enredo que se alimenta o projeto.
O Amor… é uma obra que põe em questão conceitos como a própria encenação (frente à câmera, à vida), os limites do cinema, os limites da arte. O ator Gero Camilo, que faz uma ponta no longa-metragem, tem uma fala essencial sobre o assunto. Ele disserta sobre quem é maior: arte ou vida. E é interessante perceber que a colocação é feita em meio ao próprio picadeiro. A cena se dá em uma festa dentro do apê.
O casal em questão é composto por Félix (Gustavo Machado) e Gala (Mariana Previato). Um ator de teatro e uma vídeo-artista. São personagens espelhos de seus atores. Mariana Previato é, em verdade, a prórpria vídeo-artista que ela interpreta, assim como Gustavo Machado é um ator por profissão. É como se Beto Brant estivesse propondo um jogo de espelhos onde a procura pela encenação é feita através da encenação da encenação do real, como num caleidoscópio gerado pelas imagens do próprio reality.
O Amor… é uma experiência radical de linguagem inspirada no livro Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, de Marçal Aquino. Não narrativo em muitos momentos, o filme se demonstra como um ser estranho dentro da obra de Beto Brant. Mas não exatamente incoerente, já que Crime Delicado já apontava caminhos novos, veredas menos exploradas dentro do seu próprio cinema. Mas se em Crime Delicado a radicalização estava na aproximação da sua narrativa numa espécie de manifesto estético de caráter poético-dramatúrgico, nesse Schianberg, a diferenciação se dá no distanciamento dos preceitos clássicos da narrativa. O Amor segundo Shiaberg não apenas nega o clássico-narrativo, ele chega ao ápice de ser vídeo-arte e o que é mais curioso, vídeo-arte assinada por outro artista. Mariana Previato é quem assina a vídeo-arte que no fim do longa-metragem assistimos, fechando assim um ciclo de entendimento sensorial acerca desse universo observado.

Um outro ponto importante a ser analisado é no tocante à carência técnica sob a qual o Amor Segundo B. Schianberg se apresenta. Com imagens e sons claramente deficientes, temos a impressão de estar assistindo a um vídeo caseiro. Seja por falta de estrutura mais robusta ou seja por uma escolha de menor interferência no ambiente onde os personagens vivem (não há refletores iluminando-o, por exemplo), o resultado é que o filme surge com som e imagem muito aquém do que o público está acostumado a ver no cinema (mesmo quando falamos de documentários independentes com suas imagens de baixa resolução). Mas mesmo neste ponto o longa-metragem/série de TV de Beto Brant parece estar bem ancorado. Sendo a personagem uma vídeo-artista, e sendo seu relacionamento amoroso parte de sua obra (ou foco de seu recente trabalho), é como se o filme estivesse imbuído das intenções estéticas da câmera da própria Gala.
O Amor Segundo B. Schianberg é para ser visto com uma postura semelhante a de quem vai a uma galeria. Trata-se de uma obra de arte que tem em sua essência signos comuns ao universo das artes plásticas. Em muitos momentos, talvez signos mais alinhados às artes plásticas do que ao próprio cinema narrativo.