
Estranho fenômeno atmosférico (que pode ou não se relacionar com meteorito que caiu na praia) aflige Recife: a cidade, antes tropical, esfriou, as temperaturas não superam os 14o. C e as chuvas são constantes. Para cobrir o acontecimento, Kléber Mendonça Filho escala repórter de língua espanhola, já que apenas o olhar do outro, de fora, para analisar com a devida “impacialidade” a situação.
Recife Frio, como Vinil Verde, filia-se ao cinema fantástico (abre com música de terror, aliás). Falso documentário, segue a tradição iniciada por Orson Welles na transmissão radiofônica de A Guerra dos Mundos pelo Mercury Theater, já que transforma, através da interferência midiática, evento absurdo em verdade, em fato documentado.
Há, no entanto, mais Hitchcock do que Welles em Recife Frio, pois as condições climáticas não passam de mcguffin, de gancho para Kléber Mendonça Frio tratar do que realmente deseja: a desumanização da cidade, que se verifica desde antes do evento meteorológico, fruto da especulação imobiliária, da verticalização dos prédios e do abismo crescente entre ricos e pobres.
As ruas estão frias e vazias não porque chove, e sim porque os habitantes migraram para os shopping centers. O consumo prevaleceu sobre o calor humano.
Recife Frio, de Kléber Mendonça Filho, 2009.

Veja a cobertura completa da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.