
As primeiras imagens lembram O Baile, de Ettore Scola: globo reluzente de discoteca, pista de dança quadriculada, música de outros tempos no ar. Mas a semelhança termina quando Bailão, maravilhoso documentário de Marcelo Caetano, dá voz aos personagens – todos homens, senhores e homossexuais – que se dirigem ao local para se encontrarem e se divertirem.
São testemunhos pungentes e emocionantes, de homens com mais de 60 anos, que viveram sob a repressão machista e conservadora – que foram educados a ver o próprio desejo com culpa, a procurar a noite, a mergulhar na marginalidade.
Marcelo Caetano, porém, abre espaço para as lutas de afirmação do movimento gay, que os personagens que entrevista travaram ao longo da vida. Retrata como, ao longo da Ditadura Militar, os direitos homossexuais ganharam força – já que não se podia mudar a sociedade, pelo menos que se revolucionasse o indivíduo. E não omite o doloroso capítulo da AIDS, que retornou com a ideia do pecado junto à comunidade, e que impossibilitou a muitos que assistissem às conquistas de hoje, como a Parada Gay.
No entanto, se os homossexuais não precisam mais se esconder – se já podem amar de acordo com a própria consciência – ainda faltam direitos a alcançar na sociedade. Reunirem-se fora de lugares específicos, por exemplo. Ou que pais não retirem seus filhos da exibição de Bailão, como infelizmente ocorreu na exibição do curta-metragem na Mostra de Tiradentes.
Bailão, de Marcelo Caetano, 2009.

Veja a cobertura completa da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.