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Estrada para Ythaca


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Publicado em 27 de Janeiro de 2010

Estrada para Ythaca, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti.

Para expurgarem a morte de amigo, quatro rapazes viajam para Ythaca, região metafórica que aponta tanto para o Cinema do Terceiro Mundo, entoado por Glauber Rocha em Vento do Leste, de Jean-Luc Godard (sequência que os diretores homenageiam), quanto para a redenção e a catarse do sofrimento e da ausência.

Filme coletivo, de realizadores jovens, Estrada para Ythaca imediatamente nos lembra de Conceição – Autor Bom É Autor Morto(também pela importância da roda de cerveja em ambos). Porém, se este era episódico, aquele é linear – na medida do possível, já que os diretores respeitam a premissa clássica do início-meio-fim, mas a preenchem com acontecimentos banais, desdramatizados, burlescos: os protagonistas (os próprios Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti) jogam conversa fora, acendem fogueira para esquentar água, urinam na beira da estrada, dormem ao relento, trocam o pneu do carro e… bebem. Muito.

Estrada para Ythaca prega o humor e a liberdade (a ponto de manter na edição cena em que um dos diretores tropeça na câmera – é o Cinema do Terceiro Mundo, afinal), assim como flerta com o fantástico e o maravilhoso, à maneira de Buñuel e de Jean Vigo (apenas uma nave espacial, evento fora do comum, é capaz de levá-los às portas de Ythaca). O filme, no entanto, também interage com outra tradição cinematográfica, bem distinta: a dos amigos (homens) que se reúnem e constatam a falência do mundo.

Dois exemplos vêm à mente: A Comilança, de Marco Ferreri, e Dias e Noites na Floresta, de Satyajit Ray, clássicos dos anos 70. Em A Comilança, quatro amigos de meia-idade viajam para castelo e, depois da mais triste orgia jamais filmada, comem até morrer, uma vez que a vida se tornou insuportável. Em Dias e Noites na Floresta, (outra vez) quatro colegas de trabalho saem de férias e se relacionam com os vizinhos ricos e a imensa população local que vive na pobreza. Para Ray, em jogo, a crise ética e moral da sociedade bengali, em decorrência do ultrapassado sistema de castas e do avanço do capitalismo.

Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti, para se restabelecerem da morte do amigo, buscam Ythaca, lugar mítico, ideal (como os amigos de A Comilança descarregam na comida suas frustrações).  Mas não precisariam, se a realidade funcionasse a contento: o mal-estar do mundo se apresenta, em Estrada para Ythaca, indiretamente, pois não há soluções por perto – apenas ao longe, em terras distantes.

Estrada para Ythaca, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti, 2010.

Veja a cobertura completa da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

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    2 Commentários sobre 'Estrada para Ythaca'

    1.  
      Nina

      15 Abril, 2010| 8:04 pm


       

      Paulo Ricardo de Almeida: não se confunde “autor bom é autor morto” com “bandido bom é bandido morto”. Parece que seu inconsciente transbordou para onde não poderia. Sugiro que conserte o título do filme “Conceição” com urgência.

    2.  

      20 Julho, 2010| 2:20 am


       

      Errei, troquei as frases. Na correria de escrever durante um festival, essas coisas acontecem. Mas pareceu errado. Meu inconsciente, como meu consciente e subconsiente, são contra a política do bandido bom é bandido morto.

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