
Abbas Kiarostami ensina que se filma a morte apenas para exaltar a vida: em O Vento Nos Levará, engenheiro viaja de Teerã para o interior, a fim de registrar a morte de parente. Como ela se recusa a falecer, prolongando sua estadia, ele toma contato com os habitantes da vila, e descobre a beleza e a maravilha das ações mais prosaicas e cotidianas com que todos encaram a realidade.
Esmir Filho também fala da morte, mas para cultuá-la. Em cidadezinha gaúcha, jovem órfão de pai, descendente de alemães e fá de Bob Dylan, encontra-se obcecado pela irmã do amigo, que se suicidou. Ele a acompanha, nos vídeos e fotos que deixou na internet, ao lado do namorado. O herói deseja partir, mas para onde? Encontrar Bob Dylan? Ou unir-se à mulher que admira, já morta?
Os Famosos e os Duendes da Morte flarta com o spleen, o mal-do-século, o sentimento de inadequação romântico em relação ao mundo. Bob Dylan não surge como símbolo se incorformismo político e social, egresso dos conturbados anos 60 e 70, que geraram a juventude hippie que tinha o projeto de agir sobre o mundo, alterá-lo: parar a Guerra do Vietnã, emcampar os Direitos Civis, viver o amor livre. O Bob Dylan de Esmir Filho não é, como o de Todd Haynes em Não Estou Lá, a atualização do fora-da-lei Billy the Kid: ele representa simplesmente a fuga da realidade – como também são a maconha que os adolescentes fumam, o youtube e o MSN que o personagem principal utiliza, a garrafa de bebiba (que chamam de “felicidade”) ou a obsessão com a jovem que se suicidou.
Fugir, única vontade do herói, para quem o amor “não é físico”. Todas as visões da mulher que admira são etéreas, fugidias, não porque ela está morta, e sim porque corresponde ao ideal que nutre sobre relacionamentos: contato humano, em Os Famosos e os Duendes da Morte, é abominável. O protagonista despreza qualquer interação, que o chateiam, seja com a mãe, os avós, os colegas da escola ou os amigos. Somente o mundo virtual o satisfaz.
O herói poderia se reconciliar com a comunidade, na festa junina dos colonos. Após a sequência na estação de força, ele dança com a mãe – seria a afirmação da vida, como proposta por Kiarostami. Mas ele foi se despedir, pois ruma para destino não tão incerto assim: a morte.
Esmir Filho prefere a melancolia dos que se escondem da realidade, dos que fogem
Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho, 2009.

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