
Em Natimorto, baseado no romance homônimo de Lourenço Mutarelli, o caça-talentos (o próprio escritor) faz proposta inusitada para sua descoberta (Simone Spoladore): viverem ambos trancados no quarto do hotel, durante seis anos, longe e seguros do mundo, cuidando um do outro. A partir das imagens que vêm nos maços de cigarro que fumam em profusão, ele tenta prever o futuro dos dois, em analogia às cartas do tarot.
Mutarelli descrê da sociedade: a vida é um câncer, uma doença sexualmente transmissível. O natimorto, por atravessar direto do útero materno para a morte, seria puro, perfeito, imaculado, já que não se manchou com as torpezas do mundo. Porém, o discurso do autor esconde suas verdadeiras intenções: por que se relacionar com Simone Spoladore, ao invés de simplesmente desaparecer?
A justificativa, de que ambos são diferentes e devem se preservar, não convence. A personagem de Spoladore anseia pela fama e pelo sucesso, a de Mutarelli está sujeito às mesmas tentações que os outros mortais. Todos possuem seu lado negro, como o autor destaca inúmeras vezes – e, por conhecê-lo e temê-lo, ele propõe que se encontrem, que entrem em contato, que unam forçam.
É melhor sofrer juntos do que separados, já nos ensinou Rainer Werner Fassbinder. Mutarelli acredita que duas almas desesperadas possas se conectar, mesmo que a relação seja marcada pela violência e pela desconfiância. Ambos, apesar dos defeitos que possuem, talvez se apóiem um no outro, cuidem de suas respectivas feridas, enfrentem a realidade cruel com mais disposição – como Gerárd Depardieu e Isabelle Huppert, no final de Loulou, de Maurice Pialat.
A direção de Paulo Machline, entretanto, não colabora com a força do texto. O cineasta abraça o que se pode chamar de “estética Mutarelli”, que permeia os filmes que se baseiam na obra do autor: fotografia granulada, luzes expressionistas, branco estourado, ângulos extremos de cãmera, montagem frenética. Necessita-se de tais artifícios para representar o mundo que Lourenço Mutarelli imaginou? Por que simplesmente não confiar na potência das palavras?
Natimorto, de Paulo Machline, 2009.

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