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Minha filha, você não irá dançar


Por Aristeu Araújo

Publicado em 25 de Janeiro de 2010

Não, minha filha, você não irá dançar

Lena (Chiara Mastroianni) tem trinta e poucos anos, dois filhos pequenos e é recém divorciada. Ela é a protagonista do incômodo Não, minha filha, você não irá dançar, filme mais recente de Christophe Honoré, cineasta francês pouco conhecido por aqui. Trata-se de um longa-metragem muito duro, até certo ponto difícil de assistir. Mas por isso mesmo, pelo pouco comedimento, interessante.

Embora Lena esteja no centro deste universo fílmico, há um abismo que a separa do seu pequeno círculo afetivo. Além de seus filhos, há também seus pais, os dois irmãos e seu ex-marido, bem como Simon, o amante ocasional vivido por Louis Garrel, de Sonhadores. Este abismo é tão extenso e doloroso para a personagem de Chiara, que a põe numa posição ingrata, injusta.

Lena inicia o filme viajando com os dois filhos para o interior, buscando guarida na casa dos pais. Autocentrada demais, deprimida demais, Lena se mostra incapaz de cuidar dos filhos ou de si. Já nos primeiros minutos, a vemos correndo desesperada à procura do filho mais velho, Anton. Ela o perdeu em meio à multidão que percorre a ferroviária. É uma sequência importante, que apresenta-nos uma personagem preocupada, sim, com seus filhos, mas incapaz de mantê-los em segurança. Ainda neste momento, metaforicamente, Anton acha um pássaro doente e a convence de levá-lo para que possam cuidar dele. Mas o pássaro morre, porque Lena é incapaz de manter qualquer um que esteja sob seus cuidados.

Neste mundo em que Lena sobrevive, há dores demais, palpáveis demais. É com esse alicerce que toda a história irá se erguer. E em cima de uma tamanha dor, Honoré nos diz que só mais dor é possível de se construir. Não há possibilidade de redenção, ao menos não em um curto espaço de tempo.

O que há de mais verdadeiro e cruel neste Não, minha filha, você não irá dançar, é o fato de que o amor nem sempre é capaz de salvar, redimir, abrir caminhos novos. Lena ama seus filhos incondicionalmente, assim como eles próprios a amam; assim como seus pais amam os netos e a própria filha. Mas nada disso é capaz de retirá-la desse círculo de dor e egoísmo em que, como num vórtice, está presa.

Verdade seja dita, Não, minha filha… não é um filme sádico. Muito longe disso. Embora sua protagonista esteja submersa em todo esse desconforto, Honoré é capaz de fazer contrapontos não só agridoces, mas também ricos em poesia. E isso é digno de relevo, já que seria muito fácil deixar o filme afundar num contraditório “hiperrealismo”, o levando para o submundo dos sentimentos humanos. Ao contrário, o filme deixa transparecer uma beleza e alegria que só acentua o distanciamento de Lena. Assim como na sequência que dá título ao longa, quando seu filho – em um raro momento de verdadeira comunicação com a mãe – conta-lhe uma história que acabou de ler. É uma lenda da Grã-Bretanha, na qual uma jovem promete se casar com aquele que ela dançar por doze horas a fio. Honoré, desse modo, filma uma longa sequência de dança, grande parte dela em câmera lenta, onde pretendentes vão morrendo de esgotamento físico. É o momento de maior ternura do longa, em que se permite ao espectador mergulhar em uma profunda beleza plástica, capaz de nos lembrar o que é realmente o cinema.

Entretanto, tudo isso tem vida curta. Logo voltaremos pras dores dessa personagem. E como fomos alçados para tão alto patamar, o retorno surge como se faltasse chão. É uma queda danosa.

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