Seams marca a estreia na direção de Karim Aïnouz, que mistura documentário e ficção em filme profundamente confessional. Ainda radicado nos EUA (onde enfrentava problemas com o visto), Aïnouz entrevista a avó e as tias-avós que o criaram no Ceará, ao mesmo tempo em que disseca o machismo da sociedade brasileira (e nordestina, em particular) e reflete sobre o próprio homossexualismo.
Aïnouz expressa sentimentos conflitantes: se expressa saudades de casa, longe do Brasil há mais de cinco anos, também reconhece a opressão que o machismo encravado em nossa cultura exerceu em sua sexualidade. O cineasta desabafa e ajusta as contas com o passado, agradece pela ausência de figuras paternas na família (o pai e o avô abandonaram as esposas), e se centra nas cinco irmãs, já idosas, ,que o educaram e o ensinaram a desconfiar dos “machos”.
Porém, a despeito de todo carinho com que as filma, Aïnouz não esconde a amargura na fala da avó e das tias-avós. Para se protegerem do machismo da sociedade, elas renunciaram ao amor, à felicidade, tornaram-se céticas, desconfiadas e irônicas. E, apesar dos cuidados, também se deixaram influenciar pelo dos desmandos dos homens, como mostra a pergunta que Karim Aïnouz teme que alguma delas lhe faça: já com 26 anos, e ainda sem namorada?
Na história que as irmãs lhe contavam quando criança (e claramente encenada), o machismo arraigado na cultura brasileira, capaz de determinar a sensibilidade das mulheres, personifica-se na tia invejosa de Maria, que esconde as cartas que o marido (que não era rico o suficiente) escrevia à sobrinha, acabando com o casamento.
Seams, de Karim Aïnouz, 1993.

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