
Belíssima e surpreendente estreia na direção de Marco Ricca, que adapta o romance homônino de Marçal Aquino, roteirista habitual de Beto Brant (com quem Ricca trabalhou em Os Invasores e Crime Delicado). Cabeça a Prêmio injeta doses maciças, no cinema policial brasileiro, da imprevisibilidade que apenas as emoções e os impulsos humanos proporcionam.
Os irmãos Valdomiro e Abílio chefiam o tráfico de drogas na fronteira entre Mato Grosso do Sul, Paraguai e Bolívia. Dênis, que transporta a droga de avião, apaixona-se por Elaine, filha de Valdomiro. Quando ela engravida, o casal foge: para se salvar, o piloto aceita depôr contra o antigo chefe. Albano e Brito – que vive problemática relação com a cafetina Marlene – saem a caça de Dênis e Elaine para matá-los.
Marco Ricca entrelaça com rara competência as relações afetivas de Valdomiro/Elaine, Dênis/Elaine e Brito/Marlene, que movem a narrativa de Cabeça a Prêmio. A despeito do enredo complexo e dos múltiplos personagens, Ricca se atém ao essencial: como os desejos e os sentimentos mais primários influenciam as menores e mais banais ações. Assim, embora Dênis ameace o tráfico de drogas na fronteira, Mirão manda assassiná-lo por se envolver com Elaine, de quem nutre ciúme doentio; Brito rompe com Marlene pois não suporta vê-la com outros homens, apesar do passado como prostituta; Abílio se ressente do irmão, que não reconhece sua importância, ao mesmo tempo em que se interessa sexualmente por Dênis.
Nas vastidões do Cerrado e do Pantanal do sul-matogrossense, nas cidadezinhas do interior do Brasil, onde a populção acredita somente no bem e no mal, em Deus e no Diabo, Albano se define como “bom, mas do lado errado”. São os afetos que levam os personagens de Marco Ricca e de Marçal Aquino em Cabeça a Prêmio às escolhas erradas, como também permitem a Brito sua salvação: ele se reconhece (e a Marlene) em Dênis, que jaz assassinado no chão, e em Elaine, que abraça o noivo, a quem poupa da morte.
Cabeça a Prêmio, de Marco Ricca, 2009.

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