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Mulheres loucas de amor


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Publicado em 6 de Dezembro de 2009

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gimarrodrigues

Sábado,  noite  amena. Ao sair de casa, em Copacabana, peguei meu bloco de notas azul, máquina fotográfica digital, canetas Stabilo – point 88 fine 0,4 – e uma sacola ecológica para levar uma bebida para o jantar e a entrevista com o jornalista Gilmar Rodrigues. O motivo do encontro é o lançamento do seu primeiro livro, Loucas de Amor, mulheres que amam serial killers e criminosos sexuais (editora Idéia a Granel). Gilmar é gaúcho, vive há 13 anos na cidade do Rio de Janeiro e é roteirista da Rede Globo. Editou a Revista Dundum Quadrinhos e colaborou na VIP, Outra Coisa e Pasquim 21. É autor de crônicas, reportagens, peças de teatro, anúncios, roteiros de cinema de animação, novela de rádio e quadrinhos.

Ao chegar a sua casa, em Ipanema, fui recebida por ele e sua esposa, a figurinista Bettine Silveira. Enquanto ela preparava um delicioso chanclich, comecei a conversa com Gilmar. A ideia para escrever o livro surgiu quando descobriu que Francisco de Assis Pereira, que tinha 30 anos, se tornou famoso como o Maníaco do Parque e recebeu centenas de cartas de mulheres nos primeiros meses na prisão em 1998. “Creio que li uma entrevista na Trip ou TPM sobre isso, não lembro em qual foi”.Tudo começa de verdade depois dessa comprovação. Pensou ainda em colocar um anúncio num jornal, mas desistiu. O objetivo era localizar mulheres com esse estranho amor por homens que cometeram crimes sexuais. Para atraí-las para o seu comunicado seria preciso forjar um personagem que fosse um serial killer. Isto não daria certo, concluiu. Seu caminho foi outro: o da pesquisa. Após quatro anos entre a ponte aérea Rio-São Paulo, meses ininterruptos escrevendo, cem entrevistas, inúmeros ofícios enviados, estudos de cartas, jornais e revistas, Gilmar concluiu a aventura, dentro da lei, para revelar o universo dos que vivem nas prisões por terem cometido crimes hediondos e das mulheres que se apaixonam por eles. “Há um fascínio sexual forte da parte delas”, diz.

O Maníaco do Parque não conversou com o autor. Não foi possível entrevistá-lo, mas muitas pistas sobre as mulheres que enviavam cartas para Francisco foram encontradas. Antes de saber onde viviam e o que faziam, houve todo um trâmite burocrático para chegar a delegacias de São Paulo e ao Presídio de Itaí (onde 100% das prisões foram motivadas por crimes sexuais) e ao de Oswaldo Cruz. Os dois locais ficam há cinco e oito horas da capital paulista, respectivamente. Nestes espaços a sua pesquisa avançou. Para conversar com os presos não bastou entrar nos presídios, foi preciso também que eles concordassem em falar com Gilmar.

“Outros presidiários conhecidos também recebiam cartas. Uma admiradora do Bandido da Luz Vermelha enviava, semanalmente, uma carta. Há mulheres viajam para prisões perto do Mato Grosso para visitar os criminosos sexuais pelos quais estão fascinadas. Segundo eles, há umas que gostam de traficantes, outras de estupradores… Além de ter a fantasia de que esses homens são super machos, elas não se importam com os crimes cometidos. O objeto de desejo das que aparecem no livro é o estuprador e o criminoso sexual. Quando  são casados, a esposa os perdoa e os visita na prisão”, revela. “Não deixo de vê-lo. Agora é a hora que ele está precisando mais”, é o que costumam dizer sobre os maridos. Gilmar constatou que a situação social dos que cometeram crimes sexuais é a mesma dos que estão detidos por crime comum.

Paixões expostas

loucasdeamor“Meu adorado amor! Que bom receber uma carta tua, é sempre uma felicidade suprema… A! Que maravilha, é um banho de amor na minha alma!!! No meu coração, no meu corpo, no meu ser! Te adoro menininho, te amo de paixão!!! … todo o dia tenho te escrito uma carta, é uma necessidade de estar junto contigo, de alguma maneira perto de ti, meu homem meu noivo amado.” Este é o início de uma carta de amor enviada ao Maníaco do Parque, reproduzida em Loucas de Amor. A autora, cujo nome fictício dado por Gilmar é Mariza Mendes Levy, chegou a casar com Francisco. Ao contrário da maioria das mulheres de origem pobre, que enfrentam as filas de visita nos presídios para ver os seus amados, ela é uma gaúcha de Uruguaiana e tem pós-graduação em história. Mariza é  filha de fazendeiro, de família judaica e de classe média alta. Gilmar conta que enquanto a mídia expunha um mostro, ela viu um anjo, uma das criaturas de Deus que mereciam uma nova chance. Mariza acreditava realmente na própria visão. No segundo parágrafo da carta escreveu: “Querido, deves neste momento estar na Barra Funda e eu aqui rezando muito pra que Deus te proteja e que tudo seja o melhor para ti, prá nós!! Desta vez a imprensa não falou nada… Bem melhor assim, tenho horror que falem mal de ti, detesto isso, acho que devem te esquecer, porque não reconhecem o novo homem maravilhoso que és.”

“Em que subterrâneo da alma humana se escondem desejos dessa natureza?”, questiona Gilmar. “Que explicação isso teria? Que mulheres seriam essas?”, continua. Ao logo dos capítulos ele mostra o universo delas, suas origens, a infância complicada, os problemas de autoestima e a carência constante. Tais perguntas não têm uma resposta única porque fazem o leitor construir outras e perceber que o livro não trata especificamente de serial killers, mas da atração que eles geram nessas mulheres. O autor partiu em busca de pistas, as que achou faz com que vejamos cada pessoa que encontrou e lhe deu informações, ou contou sua própria história, sem as marcas e estereótipos que a imprensa costuma impor nas reportagens superficiais que divulga.

Mulheres apaixonadas com formação universitária não gostam de falar sobre o envolvimento que tiveram com os presos. Não é raro que advogadas, assistentes sociais, psicólogas e profissionais que trabalham nas delegacias e presídios se envolvam com eles. Três entre as localizadas por Gilmar não quiseram falar sobre o assunto.

A mídia desempenha um papel importante para tornar criminosos sexuais e assassinos celebridades do submundo. “Francisco recebeu 1.000 cartas no período em que apareceu mais na imprensa. O motivo para escrevê-las vai desde a mera curiosidade à paixão. Há mulheres querem converter o cara. A religião serve para aproximá-las deles. Elas desejam conduzi-los à redenção. É comum uma mulher começar um trabalho religioso num presídio e se apaixonar em seguida. Eis a justificativa de uma: Se ele está no meu caminho é porque Deus quer. Quando uma mulher se depara com um criminoso sexual troca códigos complementares”, informa Gilmar.

“Eu tô no artigo”

Os caras que estão no artigo são chamados de jacks – sim, a referência é a Jack, o Estripador. O artigo em questão é o 214 do código penal que trata de crimes sexuais. “Para justificar a vergonha e o medo, costumam dizer coisa do tipo esse artigo aí é embaçado, mano. Temem a descriminação violenta e penas severas por terem sido enquadrados em um crime hediondo, explica Gilmar no capítulo A fila da visita íntima.

Ao longo da narrativa, vamos descendo por círculos densos onde nos deparamos com as mulheres que amam o Maníaco do Parque, as que esperam na fila da visita íntima, os que conviveram com João Acácio, o Bandido da Luz Vermelha, os matadores em série e os sociopatas. O livro permite que o leitor, após a imersão nas histórias que Gilmar revela, tenha acesso também aos bastidores da pesquisa nos quadrinhos do paulistano Fido Nesti. Ele é colaborador da revista The New Yorker, Playboy, Rolling Stone, Época e Superinteressante. Em 2006, publicou os Lusíadas em Quadrinhos, adaptado do texto de Camões.

No primeiro quadrinho, Os Jacks, acompanhamos Gilmar e o roteirista Cláudio Lisboa no início da pesquisa. O destino dos dois é a Delegacia de Pinheiros, onde estavam mais de 120 jacks. Nos demais, aparecem as mulheres dos presos que estão no artigo, taxistas com os quais o autor conversou e o Bandido da Luz Vermelha.

Pais e filhos

fidonesti

Essa atração afetiva ou física que, devido a certa afinidade, um ser manifesta por outro: o amor, como diz Graciliano Ramos, é uma coisa. As mulheres que Gilmar encontrou viajam para muito longe por causa dessa forte afeição e ternura pelos serial killers e criminosos sexuais.

Uma das especialistas entrevistada, a neurologista Adelaide Caires, explica que a atração pode estar relacionada à infância das mulheres e homens – período em foram abandonados, sofreram críticas e muita violência no meio familiar. Meninos e meninas criam um mecanismo: mentem, enganam e, quando sofrem abuso sexual do pai, acabam achando normal. Tudo pode, então, começar na infância.

“As mulheres das distintas classes sociais entrevistadas não tiveram uma infância ou adolescência legal. Os relatos denunciavam a falta de carinho ou amor da família, maus tratos e pai ou mãe que as abandonaram”.

Mesmo depois da leitura do livro e da realização desta entrevista, há questões que permanecem: por que amam incondicionalmente esses homens? Como pode o Maníaco do Parque que, além de ser extremamente violento, ter problemas de ereção e manter relações sexuais com outros homens, fascinar tantas mulheres?

Em tempo:

O lançamento do livro aconteceu em novembro em São Paulo e no Rio de Janeiro.

 

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1 Commentário sobre 'Mulheres loucas de amor'

  1.  
    Vitor Rebello

    7 Dezembro, 2009| 4:08 pm


     

    Eis que surge nessa semana a discussão de um projeto de lei, de autoria do Senador Crivella, que propõe a castração química… vale a pena conferir. A reportagem é ruim, mas foi a melhor que encontrei.

    http://amigosdocrivella.wordpress.com/2009/09/21/senador-crivella-a-pedofilia-os-pedofilos-e-a-castracao-quimica/

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