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Carta aberta aos responsáveis pela projeção digital no Brasil


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Publicado em 14 de Outubro de 2009

O texto abaixo foi confeccionado após o Festival do Rio 2009. Críticos de cinema, de diversos veículos, assinam a carta em apelo a uma projeção digital mais digna. O texto foi discutido e gerado em debates no Fórum da Crítica, grupo de discussão virtual que agrega esses profissionais.


A projeção digital chegou ao Brasil com a missão de democratizar o acesso aos filmes e libertar os distribuidores da dependência de cópias em 35 milímetros, cuja confecção e transporte são notoriamente caros. A instalação de projetores digitais permitiria ao público assistir a títulos que dificilmente seriam lançados nas condições tradicionais e ainda ofereceria condições para que espectadores situados longe do eixo Rio-São Paulo (onde se concentram quase 50% das salas de cinema do país) tivessem acesso aos mesmos títulos simultaneamente.

O que estamos vendo, no entanto, é uma total falta de respeito ao espectador no que se refere à exibição do filme propriamente dita. As razões são basicamente duas: projeções incapazes de reproduzir fielmente os padrões de cor e textura da obra e/ou projeções incapazes de exibir os filmes no formato em que foram originalmente concebidos. Sem falar no som, que muitas vezes ganha uma reprodução abafada, limitada ao canal central, muito diferente de seu desenho original.

A adoção da projeção digital pelos dois maiores festivais internacionais do Brasil (o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo) e por outros festivais do país, infelizmente, não respeitou o que seriam critérios mínimos de qualidade de projeção de filmes em cinema – algo que é observado com atenção em qualquer festival internacional que se preze. Trata-se de uma situação particularmente alarmante tendo em vista o papel de formadores de plateia que esses eventos desempenham.

Sucessivamente, temos visto um autêntico massacre ao trabalho de cineastas, fotógrafos, diretores de arte, figurinistas, técnicos de som e até mesmo de atores. Apenas para citar um exemplo: Les herbes folles, o novo filme de Alain Resnais, originalmente concebido no formato 2:35:1, foi exibido no Festival do Rio, com projeção digital, no formato 1:78. Isso representou o corte da imagem em suas extremidades, resultando em enquadramentos arruinados, movimentos de câmera deformados e rostos dos atores cortados. Um pouco como se A santa ceia, de Leonardo Da Vinci, tivesse suas pontas decepadas, deixando alguns discípulos de Jesus fora de campo – e da história. Para completar o desrespeito, não há qualquer aviso em relação às condições de exibição e o preço cobrado pelo ingresso não sofre qualquer alteração.

A santa ceia, como Leonardo Da Vinci pintou:

A santa ceia, como Leonardo Da Vinci pintou.

A santa ceia, em projeção digital – pontas cortadas, apóstolos fora do quadro:

A santa ceia, em projeção digital - pontas cortadas, apóstolos fora do quadro.

Não nos cabe, aqui, pregar a “volta ao 35mm” nem defender determinada resolução mínima para a projeção digital. Sabemos que, se respeitados determinados critérios técnicos – ou seja, se a empresa responsável pela projeção digital receber do distribuidor o master no formato adequado, se o processo de encodamento for feito corretamente, e se os ajustes necessários para a exibição de cada filme forem realizados cuidadosamente –, a projeção digital pode ser uma experiência perfeitamente satisfatória para o espectador.

Não é isso, porém, que tem ocorrido. Exibidores, distribuidores e os fornecedores do serviço da projeção digital são responsáveis pela má qualidade da projeção e coniventes com esse lamentável descaso geral, que tem deixado críticos e amantes de cinema indignados. É um desrespeito ao cinema e aos seus criadores, mas, sobretudo, ao espectador e consumidor final, que saiu de casa e pagou ingresso para ver um filme.

A situação chegou a um ponto intolerável. Pedimos a todos os profissionais envolvidos com a projeção digital que tomem providências para que tais deformações não se repitam.



5 Commentários sobre 'Carta aberta aos responsáveis pela projeção digital no Brasil'

  1.  
    luciane

    15 Outubro, 2009| 6:54 pm


     

    Eu, como mera espectadora e amante do cinema, apoio incondicionalmente a campanha. Nem imaginava os horrores que vinham sendo cometidos pelos distribuidores, fornecedores e exibidores, como sempre mais interessados no lucro do que com a qualidade dos filmes exibidos.

  2.  
    luciane

    15 Outubro, 2009| 6:55 pm


     

    ps: achei muito bom o didatismo com a santa ceia!

  3.  

    19 Outubro, 2009| 3:55 pm


     

    Parabéns pelo site, pelo blog, por tudo!
    Conheçam, também, o meu trabalho de pesquisa sobre cinemas de São Paulo.
    http://salasdecinemadesp.blogspot.com
    e
    http;//salasdecinemadesp2.blogspot.com
    Um abraço a todos.

  4.  

    19 Outubro, 2009| 4:49 pm


     

    Parabenizamos a iniciativa do autor do manifesto publicado no blog da revista Moviola e aproveitamos a oportunidade para esclarecer alguns dos pontos mencionados.
    Entendemos que o grande fato gerador tem sido as exibições em Festivais, notadamente o Festival do Rio e Mostra de São Paulo que são as maiores portas de acesso aos filmes independentes do Brasil.

    No último Festival do Rio foram exibidos mais de 300 títulos. Destes, 19% foram filmes efetivamente digitalizados e exibidos em HD (alta definição), respeitando a janela e a velocidade da master do filme entregue à Rain por distribuidores ou pelo Festival. A Rain, no processo de digitalização, não realiza qualquer alteração de janelas, de aspect ratio, velocidade ou canais de áudio.

    Para 60% dos títulos exibidos excepcionalmente em festivais o formato é eletrônico, ou seja, por caráter logístico e/ou econômico, os filmes são exibidos a partir de fitas. Por decisão dos festivais, mais uma vez logística e/ou econômica, o formato mais comumente adotado são fitas DVCam, o que, na maioria dos casos gera perda de qualidade por conta da menor resolução de imagem, da compressão de cor e da capacidade de reprodução de áudio restrita a 2 canais.

    A grande diversidade de materiais oriundos de diversas partes do mundo com formatos de diferentes velocidades e resolução gera um enorme problema técnico aos organizadores do Festival que não poderiam contar com diversos players de diversos formatos para cada sala. Acrescente a isso o fato de muitos diretores e produtores se aproveitarem do formato em fita para enviar filmes que ainda não estão em seu corte final ou sem masterização para testar a receptividade de seus filmes durante os festivais, além de possibilitar que ele possa “viajar” de maneira econômica. Esta dinâmica é fruto do momento de transição que o mercado do audiovisual está passando. E seguirá evoluindo nos próximos anos.

    A Rain preza pela manutenção da qualidade da master entregue e estipula as especificações claras em seu site:
    http://www.rain.com.br/Publicos/SeuFilmeEmDigital/Pages/ESPECIFICAÇÕESPARAENTREGASDECONTEÚDO.aspx

    Obrigada pela oportunidade de esclarecimento.

  5.  
    Ioleth Costa Porto

    26 Novembro, 2009| 11:21 pm


     

    Concordo plenamento com os comentários sobre a qualidade dos filmes.Eu mesma participei de dois curtas e não gostei de nada que vi. Não gostei da forma que me vi na tela. Achei que ficou muuito a desejar tanto, no colorido como no som. Acho que na hora da formatação (não sei se este é o termo) a trama e tudo que a compõem deixam muito a desejar..

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