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Quem quer ser um mulherão?


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Publicado em 13 de Outubro de 2009

Vocalista desde 1992 da banda mineira Pato Fu, Fernanda Takai lançou neste ano seu segundo trabalho solo, Luz Negra. O disco retrata a versatilidade da cantora que consegue dar coesão a um álbum com canções de Tom e Vinícius, Eurythmics, Nelson Cavaquinho e Michael Jackson.

Takai está em turnê pelo país e vem divulgando a publicação em livro de uma seleção de crônicas e contos que escreveu pros jornais Correio Braziliense e O Estado de Minas. Entitulado Nunca subestime uma mulherzinha, o livro traz reflexões sobre os modos de pensar e sentir femininos. As “confissões” da autora nos levam a questionar o que tomamos como típico de mulherzinha ou de mulherão.

Fernanda Takai respondeu, por e-mail, perguntas sobre esses seus dois últimos trabalhos. Confira abaixo.

Foto: Fabiana Figueiredo e Pierre Devin

Revista Moviola: Nunca subestime uma mulherzinha é um livro “extremamente confessional” como salientou a Zélia Duncan no prefácio. Parece que temos um Moleskine seu nas mãos, no qual você foi anotando de tudo durante anos e guardando na bolsa. Textos que refletem um auto-escrutínio constante e necessário para estar bem e não ser sugada por tudo o que te cerca. Quais seriam as coisas que podemos fazer para que seja “tudo bem ser diferente”?

Fernanda Takai: Uma coisa que ajuda muito a gente a enfrentar o cotidiano e suas pedras, é a autoestima. Mas isso é algo que se constrói com o tempo, claro. Esse caminho até ganharmos uma certa segurança é que tem que ser o mais natural possível. Eu acho que o bom humor é algo imprescindível pra gente tentar ser feliz, aparar as arestas do mundo.

Nunca subestime uma mulherzinha, de Fernanda TakaiRM: Na crônica Nunca subestime uma mulherzinha você aponta para características femininas que fazem com que sejamos chamadas ou que nos fazem vestir a carapuça de “mulherzinhas”. Estamos constantemtente “comprando” tal rótulo. Por que é tão fácil para a mulher se depreciar, sentir que deveria/poderia estar fazendo mais e melhor e achar que há sempre alguém observando-a e julgando suas escolhas, atitudes e ações?

FT:  Porque as mulheres estão mesmo sempre sendo julgadas pelo dia a dia. Principalmente aquelas que cuidam da rotina do lar. Parece que qualquer pessoa (homem ou mulher) tem o direito de dar nota pela roupa passada, a comida na mesa, a limpeza da casa. E as meninas tem sempre que estar “arrumadinhas”, se saindo bem na escola, serem prendadas. Parece que um homem largadão está só sendo homem… e ninguém de casa fica avaliando o desempenho dele na firma quando ele cresce. Não temos esse acesso. A gente, mulherzinha, é mais visível e por causa disso fica com essa imagem anestesiada. Será?

RM: Há assuntos que você prefira não abordar por receio do que a sua filha Nina possa pensar ao ler um texto seu no futuro? Os filhos podem ter esse poder sob uma mãe escritora? O de ser o maior dos críticos sem nem mesmo poder ler ainda?

FT: Não tenho essa preocupação. Aliás, só pensei sobre isso agora que você me perguntou. Quero que ela saiba que eu sou assim mesmo. Nesses textos eu estou com filtros mínimos. É tudo muito pessoal, e ao mesmo tempo, reservado, à minha maneira.

RM: A crônica Tudo que não me permiti sonhar me trouxe às lágrimas. O que é mais difícil e o que é mais delicioso em ser mãe?

FT: Não tem essa separação, é tudo meio simultâneo. A mesma delícia tem lá suas dificuldades. Mãe é um ser engraçado que fica ensinando as coisas pro filho, mas quer mesmo é continuar a cuidar dele pra sempre. Eu gosto disso tudo e quero repetir a dose. Aliás, se não tivesse tido tanto trabalho como nos últimos dois anos, já teria um segundo bebê.

RM: O poder (e necessidade) de prescrutação de si mesmo é ao mesmo tempo uma “benção” e uma “sina”. Você concorda com isso?

FT: Olha, eu nunca fui de ficar contando as minhas coisas pra ninguém. Sempre fui um ser mais ouvinte do que contadora de casos, problemas ou confissões. Mas a visibilidade artística me levou a escrever muito, dar inúmeras entrevistas e pensar ordenadamente sobre como me sinto em determinadas situações. Se pudesse, talvez eu fosse do tipo que não fica remexendo muito na minha cabeça com outras pessoas observando…

RM: Na crônica Tosse pra cachorro você fala do “como se”, quando diz que sente “como se” o cachorro do vizinho tivesse pena de você doente. Quanta importância você dá para as interpretações que faz dos possíveis “sinais”, coincidências e “como ses” que perpassam várias crônicas do Nunca subestime uma mulherzinha?

FT: Eu sou uma pessoa extremamente cética. Mas acredito que saiba olhar pro mundo que me cerca de um jeito diferente. Gosto de imaginar estórias. E a minha filha fica o tempo todo me pedindo pra desenhar e contar estórias novas. Tudo vira motivo pra ser protagonista de uma micro-narrativa. Aí eu me divirto com essas possibilidades sem pé nem cabeça que parecem coincidências. Ou quem sabe sejam mesmo…

YouTube Preview Image

RM: Vejo uma conexão entre Luz Negra e Nunca subestime uma mulherzinha. Ambos possuem um caráter intimista e expressam muito da sua personalidade, gosto e versatilidade. A conexão é essa mesma? Quais outros links existem entre a Fernanda Takai escritora e a musicista?

FT: Sim, há essa conexão até a partir do fato que é a mesma pessoa que fez o projeto gráfico do primeiro disco, do DVD, do livro, do cenário. Andrea é uma colega de faculdade com quem eu queria trabalhar faz tempo… Na minha carreira solo tomo bem as rédeas das escolhas, de quem faz parte da minha equipe, como são as coisas que saem com o meu nome. Na banda, sempre fica meio diluído pelos cinco integrantes, é normal.

O curioso é que nas canções eu geralmente faço a melodia e harmonia, não escrevo muito a letra, isso é uma coisa que o John faz melhor. Gosto de dar o tema, escrever um rascunho, mas entrego pra ele lapidar. Não sei como consigo há quatro anos e meio entregar a coluna toda semana.

RM: Luz Negra pode parecer à primeira vista um álbum desconexo por reunir, por exemplo, músicas de Chico Buarque, Michael Jackson e Duran Duran. No entanto, há uma coesão clara no disco e essa coesão me parece ser justamente a sua própria versatilidade e o toque intímo dos arranjos das músicas. Concorda? Como foi o processo de seleção das músicas? Que significados em especial elas possuem para você?

FT: Não foi difícil escolher as outras músicas fora do repertório da Nara porque são aquelas que eu gosto demais primeiro como simples ouvinte. Queria colocar no show além da MPB, o rock dos anos 80, baladas americanas, jovem guarda, carimbó… isso tudo que me faz gostar de música variada de todos os tempos e estilos. É um show de memórias musicais afetivas. Por isso soa tão natural.

RM: Você poderia falar sobre o theremin? Ele apareceu na música e videoclipe Eu do Pato Fu e reaparece no arranjo da música Luz Negra. Penso aqui na metáfora do theremin como instrumento que não “tocamos”…. O que te atrai no theremin?

FT: Ah, ele tem um timbre meio estranho e ao mesmo tempo curioso. Lembra um pouco ficção científica, fantasmas… Ele é o vovô dos instrumentos musicais eletrônicos, já foi muito usado nos anos 60, mas ficou meio de lado. É legal recuperar umas referências assim. Parece a moda que vai e vem. Alguns tecidos voltam, outras modelagens são tendência, cartela de cores que se usa no momento. A música tem disso: dependendo da época todas as músicas tem o mesmo timbre de guitarra, bumbo, teclados.

RM: Algo mais que gostaria de falar, comentar…

FT: Visitem sempre meu site: www.fernandatakai.com.br !
Obrigada.
:  D



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