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Uma Barragem Contra o Pacífico


Por Paulo Ricardo de Almeida

Publicado em 8 de Outubro de 2009

Uma Barragem Contra o Pacífico, de Rithy Panh.

Talvez a adaptação do romance homônimo de Marguerite Duras surpreenda os que desconhecem a obra de Rithy Panh. Por que seguir o modelo do filme de época e, mais especificamente, do cinema colonialista, de Tarzan a Indochina? Coerência e honestidade: Panh jamais representaria os franceses como mostrou os cambojanos em S-21: A Máquina de Morte do Khmer Vermelho, A Terra das Almas Errantes, As Pessoas de Angkor, Condenados à Esperança ou Os Artistas do Teatro Queimado.

Rithy Panh se dedica a escavar a História e as memórias do Camboja – do país devastado pelo regime comunista de Pol Pot e que, com a volta da democracia, sofre com a ganância do mercado financeiro internacional. Em Uma Barragem Contra o Pacífico, o cineasta recua no tempo, para 1931, durante o período colonial, e registra o domínio francês sobre a Indochina (através do último plano, que estabelece a ligação direta entre o romance de Duras e o Camboja contemporâneo, Rithy Panh transforma o “filme de época” em passado vivo e atuante).

Em Uma Barragem Contra o Pacífico, pela primeira vez, Rithy Panh não apresenta o ponto de vista dos cambojanos, mas dos franceses – família composta pela mãe e pelos filhos, Joseph e Suzanne, que recebe do governo lotes de terra à beira do oceano. Não dos colonizados, e sim dos colonizadores, razão pela qual o diretor adota a estratégia política de filmar os invasores como eles sempre retrataram os povos conquistados: se o cinema colonial clássico herda a ideologia do “fardo do homem branco” de Rudyard Fipling (a missão divina dos cristãos europeus de levar a civilização à África e à Ásia), Uma Barragem Contra o Pacífico revela que as grandes potências imperialistas são bárbaras, incultas, incivilizadas, oportunistas. A mãe, por exemplo, está doente e vomita todos os dias; Joseph tem os dentes podres, mal sabe escrever e mantém com a irmã relação quase incestuosa; Suzanne, que gosta de homens “brutos e selvagens” como o irmão, vende-se ao Senhor Jo em troca de vitrolas e de diamantes.

Rithy Panh compara a família francesa aos vermes que despencam do teto. Ela não é pior, contudo, que o Senhor Jo – “amarelo de alma branca” -, colonizado que se aproveita do colonizador para enriquecer, que se apropria das terras do camponeses miseráveis. Chinês (França, Inglaterra, Japão, EUA não disputavam a China?), Jo flerta com Suzanne, pelas terras da mãe e pelo orgulho de possuir uma européia. Em dificuldades financeiras, a família incentiva o casamento de Suzanne com Jo, que seria impensável caso os lotes não estivessem a perigo – de fato, embora negocie a filha, a mãe não aceita que ela durma com Jo, conforme o ideário racista que a moldou.

Uma Barragem Contra o Pacífico, de Rithy Panh, 2008.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2009.

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