
Insolação é um filme para poucos. É pretensioso na sua experimentação. Os diálogos, as cenas, as conexões entre os protagonistas e as conversas são fragmentados. Tem-se a sensação de ter um clássico cubo mágico diante dos olhos e o desafio de juntar as peças, observar as cores e os encaixes para descobrir qual o fio condutor da história. Na sessão de estreia no Odeon, Daniela Thomas, que divide a direção com o diretor de teatro Felipe Hirsch, explica que o filme é um mistério e que ela precisa do espectador para desvendá-lo.
Creio que o longa não tem propriamente um fio condutor, mas cria climas, são situações de amor, o encantamento inicial, os encontros, os desencontros e a desilusão. Um jovem adolescente se apaixona por uma personagem mais velha, que por sua vez acaba tendo um envolvimento com o pai dele. Uma garota de 13 anos gosta de um homem, que se apaixona por uma jornalista, que por sua vez ama outro – exatamente como nos versos da Quadrilha, de Drummond. Outra personagem transa com muitos homens em busca de uma sensação especial.
Os atores Paulo José, Antonio Medeiros, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, André Frateschi, Maria Luisa Mendonça, Leandra Leal, Jorge Emil, Daniela Piepszyk e Emilio di Biasi interpretam personagens que, para além da insoloção causada pelo desejo de…, carregam uma solidão que reflete na cidade vazia. Eles têm uma sintonia com o lugar onde vivem. Esse lugar é Brasília, uma locação certeira para revelar o vazio existencial e a singularidade de cada um. As referências de Insolação, segundo os realizadores, vêm de escritores russos e poloneses: Tchecov, Gombrowicz, Bunin e Schulz, entre outros.
O Andrei, interpretado por Paulo José, pode ser uma escolha para homenagear Andrei Tarkovski. Afinal, a referência russa é notável nos nomes dos personagens. Do início ao final de Insolação tem-se a sensação de que Andrei constrói e encena um monólogo, embora interaja com boa parte dos protagonistas. Sua fala é voltada para os outros, para o espectador e para si próprio.
Esse é um filme de símbolos, em muitos momentos inteligível, mas que tem uma estética desconcertante. As texturas, linhas, composições e as belíssimas figuras geométricas que aparecem na fotografia de Mauro Pinheiro Jr, sem dúvida, têm a marca e a sofisticação visual de Daniela. O roteiro é marcado pela síntese e valorização do texto. A literatura contemporânea está nele, o que é natural, pois, os roteiristas são jovens escritores, Will Eno ganhou o Pulitzer em 2005 pela peça Thom Pain e Sam Lipsyte é autor de três livros (Venus Drive, The Subject Steve e Home Land).
Ao final da sessão os espectadores podem ficar divididos entre dois extremos, ou acham o filme nonsense ou bom porque tem um quê filosófico.
Veja o trailer:

Insolação, Daniela Thomas e Felipe Hirsch, 2009.

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