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Singularidades de Uma Rapariga Loura


Por Paulo Ricardo de Almeida

Publicado em 2 de Outubro de 2009

Singularidades de Uma Rapariga Loura, de Manoel de Oliveira.

Do escritório onde trabalha (de contador para o armazém do tio), Macário se apaixona pela rapariga loura que, todos os dias, vê à janela com seu leque chinês. Expuslo de casa, pois tio Francisco não aprova o casamento, Macário viaja para Cabo Verde, ganha dinheiro, perde-o em golpe que falso amigo lhe dá, retorna para o velho emprego e finalmente consegue a permissão para se casar com Luísa – quando descobre as reais intenções da moça. É o próprio herói quem narra as aventuras que viveu para a desconhecida ao lado, na viagem de trem que os leva ao Algarve (uma vez que se conta aos estranhos o que não se fala aos amigos e à família).

Manoel de Oliveira adapta e “atualiza” conto homônimo de Eça de Queirós – desde Os Canibais, o diretor português não lida tão francamente com a decadência burguesa. Quando instado a se definir pelo amigo, Macário responde: “sou apenas um homem pobre”. Os altos e baixos pelos quais atravessa se devem exclusivamente às condições financeiras, já que Macário se casará apenas quando reunir a quantia necessária para sustentar a futura esposa – razão que o leva a vender todos os objetos pessoais, buscar emprego com os amigos do tio e viajar para Cabo Verde. Luísa, no entanto, gosta de luxo e de riqueza incompatíveis com a vida de um simples contador: ama lenços de caxemira, está sempre com o leque chinês que lhe trouxeram do exterior e, aos sábados, frequenta a mansão do Notário, que organiza sarau de artes.

No palacete, que remete ao de Os Canibais, Luís Miguel Cintra interpreta a si mesmo e recita conveniente poema de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) que versa sobre o desprezo da alma burguesa em relação aos pobres, de como ela se fecha para o mundo que a cerca e se preocupa apenas com subjetividades egoístas. Manoel de Oliveira representa a auto-suficiência dos ricos em plano brilhante: enquanto Cintra declama Pessoa, Macário, Luísa e outros convidados jogam pôquer, de costas para o ator.

Em Singularidades de Uma Rapariga Loura, Manoel de Oliveira chega ao ápice da economia fílmica em somente 63 minutos. Para simbolizar o abismo que separa ricos de pobres, bem como as idas e vindas de Macário, o centenário diretor corta da mesma paisagem lisboeta, de dia, para a noite, e vice-versa. O badalo do sino (fora de quadro) santifica as aparições da menina – quando a igreja finalmente emerge na tela, com o sino imóvel (embora se o escute), indica-se que Luísa mente, falseia e esconde seu verdadeiro caráter. E a viagem de Macário para Cabo Verde, que introduz elipse de meses ou de anos, é somente descrita nas cartas que envia à amada em Portugal, como em Pickpocket, de Robert Bresson.

Macário – honesto, correto e trabalhador, nas palavras de tio Francisco – não se casa com Luísa, que se deixa seduzir pela classe a que não pertence e que tanto almeja. A rapariga loura de Manoel de Oliveira, entre em meio às sombras último e belíssimo plano, personifica a decadência ética e a corrupção espiritual da burguesia.

Singularidades de Uma Rapariga Loura, de Manoel de Oliveira, 2009.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2009.

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