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Aconteceu em Woodstock


Por Paulo Ricardo de Almeida

Publicado em 26 de Setembro de 2009

Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee.

Ennis Del Mar, que reprime os próprios sentimentos, expressa-os apenas em Brokeback Mountain, lugar utópico onde os condicionantes sociais do dia-a-dia não se impõem. Elliot Tiber, que vive sob o jugo dos pais, enxerga no Festival de Woodstock a chance de deixar a pequena cidade para trás. O Segredo de Brokeback Mountain e Aconteceu em Woodstock possuem estruturas similares: heróis que se dividem entre a realidade cotidiana e a quimera efêmera, ambas irreconciliáveis.

Quando Wallkill caça a licença do Festival de Woodstock, Elliot Tiber o traz para Bethel – mais precisamente para a fazendo do amigo Max Yasgur. Elliot acredita que os três dias de “paz e música” cubram as dívidas do hotel de seus pais, o El Monaco, que ele administra desde a volta do Brooklyn. Contudo, Woodstock se transforma no marco da geração hippie: contracultura, amor livre, sexo, feminismo, protestos contra a Guerra do Vietnã, drogas, Panteras Negras, rock’n roll. A ruptura que o evento provoca – a comunidade local, antiquada e conservadora que se opõe aos milhares de jovens que chegam de todo país – individualiza-se em Elliot que, embora preso umbilicalmente à mãe, anseia pelas vivências e descobertas que os novos contatos lhe abrem.

Woodstock simboliza para Elliot a mesma utopia que as montanhas Brokeback para Ennis. Em ambos os filmes, Ang Lee retrata pequenas comunidades (Meio-Oeste americano, subúrbio de Nova York) avessas às mudanças e congeladas no tempo. O cineasta disseca hábitos, manias, estilos de vida e preconceitos que se solidificaram e construíram o meio social, aos quais opõe Elliot e Ennis, heróis fora de sintonia com os papéis que lhes cabem em relação aos vizinhos. Porém, se Ennis De Mar guarda Brokeback Mountain para si (refúgio solitário), Elliot Tiber promove Woodstock para todos, bomba atômica que leva à catarse e à transformação coletiva.

Ang Lee preserva a aura mística de Woodstock. De empreendimento comercial, com venda de ingressos para quarenta mil espectadores, os “três dias de paz e amor” se tornam, ao longo do filme, acontecimento que reúne meio milhão de jovens e define a cultura de sua época. Porém, embora trate com simpatia as questões levantadas pelo festival, Aconteceu em Woodstock se furta a contextualizá-las politicamente: os ideais hippies, para Ang Lee, são genéricos e agradáveis, não atos de resistência aos EUA de Nixon e Lyndon Johnson.

Em Aconteceu em Woodstock, a “sutileza” de Ang Lee se confunde perigosamente com a revisão histórica. Elliot Tiber, por exemplo, fora ativo participante do movimento gay de Nova York, antes de voltar para Bethel, assim como Max Yasgur mais do que apenas ceder a fazenda, bancou o direito dos jovens e dos hippies de se manifestarem livremente (não por acaso, ele é o Santo Padroeiro do Festival Woodstock). Mas vencer barreiras individuais é bem mais palatável que chafurdar no campo minado da política.

Assista ao trailer de Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee:

YouTube Preview Image

Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee, 2009.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2009.

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