
Dahmer é um otimista e “A Cabeça é a Ilha” seu credo
André Dahmer é um otimista. Compor personagens, extrair deles o que há de pior no espírito humano e, ainda assim, sacar o riso como resultado, somente altas doses de otimismo para esperar este tipo de reação. A Cabeça é a Ilha faz um apanhado dos muitos personagens que desfilam diária, semanal ou quinzenalmente no site dos Malvados, mas, com o livro nas mãos, o leitor pode perceber que as múltiplas nuances das criações de Dahmer ganham contornos ainda “piores” em volume tão bem cuidado.
O que dizer do enamorado e destrutivo Ulisses e da sua doentia relação com a idealizada e “cruel” Rebeca. Só um ser estranho, nas palavras do autor, para cultivar uma relação tão surreal com alguém e se satisfazer com isso. Maldades e solidão são os temas que se apresentam com maior recorrência em A Cabeça é a Ilha, mas, mesmo maus ou sós, os personagens de Dahmer terminam arrancando um riso que pode soar até improvável, imperdoável para alguns moralistas, porém verdadeiro.
Os personagens de A Cabeça é a Ilha equilibram-se no que pretende o título: seja nas agruras de um náufrago refém de sua condição, em um passeio pelo deserto dos medonhos ou nas provações dos personagens de De Nihilo Nihilum, estar só em um mundo que não reconhece a problemática inerente ao “estar só” é o problema. Em todos os tipos retratados no livro de Dahmer percebemos neles o pior do espírito, aquilo que se esconde ao sul da alma, mas que também retém algo capaz de retorcer o canto da boca e provocar um inconfessável humor de negrume impar.
Se para o autor o livro é “estranho”, me parece que é exatamente nesta aparente estranheza que ele encerra suas criações que reside seu valor: um livro, como Dahmer afirma no prefácio, “generoso sobre a solidão, o desencontro, a incompreensão” que envolve cada um dos seus leitores, confrontando-os com o que eles têm de melhor e pior. Recorro novamente ao prefácio e encontro talvez a frase que melhor ilustra a fauna de personagens perversos de Dahmer para este A Cabeça é a Ilha: “rir da própria dor é uma forma de domesticar nossos monstros e aceitar nossa fragilidade diante do abandono, da indiferença”.
Todos os personagens desta compilação escolhida a dedo pelo autor – como alguém que gosta de empurrar este mesmo dedo nas feridas – demonstram que o que temos de pior resulta da solidão, do abandono e da incompreensão das quais tratam os personagens de Dahmer. Em uma das melhores tiras do volume, quando Deus determina que o anjo Miguel desça à Terra para castigar “essa gente” estranha e o anjo exclama, supreso, um “de novo!?!?”, a reação do Criador é impagável: – Sem essa de piedade, Miguel, ou corto as suas asinhas.
Para os fãs dos Malvados, as famigeradas flores do mal criadas por Dahmer, A Cabeça é a Ilha não será novidade. Entretanto, compiladas, o veneno que escorre do livro parece ainda melhor. Exatamente por este motivo o novo rebento de Dahmer me parece indispensável em qualquer biblioteca que se preza e para qualquer leitor que preza o que tem de pior.
Eu prezo.

Alexandre Honório é jornalista e editor do e.zine Disruptores, onde este artigo foi originalmente publicado.