No documentário Auf der Suche nach dem Gedächtnis (2009) Petra Seeger faz uma descoberta extraordinária: a possibilidade de explorar as diversas perspectivas sobre a memória de um gênio. Eric Kandel (1929-), médico especializado em psiquiatria, envolveu-se nos estudos de neurofisiologia com uma intenção nada simples: juntar psicanálise e neurofisiologia em uma nova ciência da mente. O que moveu suas pesquisas foi o impulso em descobrir “exatamente” em que áreas do cérebro encontravam-se as regiões designadas por Freud como ego, id e superego. Suas descobertas em neurofisiologia foram tão fantásticas que hoje ele é considerado pelos estudantes como o “Rockstar” da neurociência. Entre outras coisas, descobriu que processos como os de memória de curta e de longa duração poderiam ser explicados em termos moleculares. Em outras palavras, descobriu que diferentes processos ocorrem nas células quando apenas reagimos às sensações e quando aprendemos com elas. Numa reação simples os neurônios transmitem informações apenas mediante uma conexão sináptica. Num processo como o de aprendizado, porém, ocorre uma alteração das informações genéticas dos neurônios, que passam a “comandar” a produção de diferentes conexões sinápticas ao mesmo tempo. Além de permitir a transmissão de informações mais complexas essa alteração genética, que permanece em nossos neurônios, nos torna capazes de rememorar.
O que me parece extremamente intrigante, contudo, é o comentário de Kandel, aos 80 anos, no qual reconhece ter descoberto muito sobre neurologia, mas muito pouco sobre psicanálise, que continua para ele um mistério. Na contracorrente de diversas tentativas de pesquisas interdisciplinares, este poderia ser um símbolo de que cada ciência possui uma perspectiva própria, muito difícil de conciliar não apenas com os métodos, mas também com os modelos de explicação de cada uma das outras ciências. Eu prefiro ver isso por outro ângulo: se o impulso não tivesse sido dado pelo caráter “misterioso” das estruturas psicanalíticas, talvez essas descobertas no campo da neurofisiologia não tivessem sido feitas. Se não compartilham dos mesmos métodos e modelos de explicação, diferentes disciplinas mantêm ao menos um interesse comum em relação às mesmas questões. E nesse sentido o intercâmbio pode ser sempre frutífero.
Além de apresentar suas grandes descobertas em neurofisiologia em seu vínculo com a motivação vinda da psicanálise, Petra Seeger explora o lado psicanalítico ainda por outro viés: leva Eric Kandel a uma viagem sobre o passado, sobre sua própria memória. Judeu nascido na Áustria, Kandel foi obrigado a imigrar para os Estados Unidos em fuga do regime nazista. Ele não exclui uma possível relação entre a paixão pelo seu tema de estudo – a memória –, as experiências traumáticas da infância e a cultura judaica pós-holocausto, cujo lema torna-se “nunca esquecer”. Mesclando cenas de entrevistas de Kandel e seus pesquisadores no laboratório, com as cenas de sua família em um passeio pela França e pela Áustria em busca de seu passado e de sua esposa, Petra Seeger consegue tornar claro algo que muitas vezes se esquece: o quanto as pesquisas científicas são movidas pela paixão à ciência e pela história pessoal dos pesquisadores. De fala simples, esperteza invejável e humor ágil, Kandel se mostra de uma genialidade, para a qual não há Nobel.

No documentário Auf der Suche nach dem Gedächtnis (2009) Petra Seeger faz uma descoberta extraordinária: a possibilidade de explorar as diversas perspectivas sobre a memória de um gênio. Eric Kandel (1929-), médico especializado em psiquiatria, envolveu-se nos estudos de neurofisiologia com uma intenção nada simples: juntar psicanálise e neurofisiologia em uma nova ciência da mente.
O que moveu suas pesquisas foi o impulso em descobrir “exatamente” em que áreas do cérebro encontravam-se as regiões designadas por Freud como ego, id e superego. Suas descobertas em neurofisiologia foram tão fantásticas que hoje ele é considerado pelos estudantes como o “Rockstar” da neurociência.
Entre outras coisas, descobriu que processos como os de memória de curta e de longa duração poderiam ser explicados em termos moleculares. Em outras palavras, descobriu que diferentes processos ocorrem nas células quando apenas reagimos às sensações e quando aprendemos com elas. Numa reação simples os neurônios transmitem informações apenas mediante uma conexão sináptica. Num processo como o de aprendizado, porém, ocorre uma alteração das informações genéticas dos neurônios, que passam a “comandar” a produção de diferentes conexões sinápticas ao mesmo tempo. Além de permitir a transmissão de informações mais complexas essa alteração genética, que permanece em nossos neurônios, nos torna capazes de rememorar.
O que me parece extremamente intrigante, contudo, é o comentário de Kandel, aos 80 anos, no qual reconhece ter descoberto muito sobre neurologia, mas muito pouco sobre psicanálise, que continua para ele um mistério. Na contracorrente de diversas tentativas de pesquisas interdisciplinares, este poderia ser um símbolo de que cada ciência possui uma perspectiva própria, muito difícil de conciliar não apenas com os métodos, mas também com os modelos de explicação de cada uma das outras ciências.
Eu prefiro ver isso por outro ângulo: se o impulso não tivesse sido dado pelo caráter “misterioso” das estruturas psicanalíticas, talvez essas descobertas no campo da neurofisiologia não tivessem sido feitas. Se não compartilham dos mesmos métodos e modelos de explicação, diferentes disciplinas mantêm ao menos um interesse comum em relação às mesmas questões. E nesse sentido o intercâmbio pode ser sempre frutífero.
Além de apresentar suas grandes descobertas em neurofisiologia em seu vínculo com a motivação vinda da psicanálise, Petra Seeger explora o lado psicanalítico ainda por outro viés: leva Eric Kandel a uma viagem sobre o passado, sobre sua própria memória.
Judeu nascido na Áustria, Kandel foi obrigado a imigrar para os Estados Unidos em fuga do regime nazista. Ele não exclui uma possível relação entre a paixão pelo seu tema de estudo – a memória –, as experiências traumáticas da infância e a cultura judaica pós-holocausto, cujo lema torna-se “nunca esquecer”.
Mesclando cenas de entrevistas de Kandel e seus pesquisadores no laboratório, com as cenas de sua família em um passeio pela França e pela Áustria em busca de seu passado e de sua esposa, Petra Seeger consegue tornar claro algo que muitas vezes se esquece: o quanto as pesquisas científicas são movidas pela paixão à ciência e pela história pessoal dos pesquisadores. De fala simples, esperteza invejável e humor ágil, Kandel se mostra de uma genialidade, para a qual não há Nobel.

Monique Hulshof é doutoranda em Filosofia.
5 Agosto, 2010| 8:52 am
Parabéns Mo!!!!! simplesmente D+
4 Outubro, 2011| 8:00 pm
+ uma vez Parabéns!!! Maravilhosa a história deste ser humano envolvendo a ciência.