
A estrutura do livro de Chico Buarque lembrava de certo modo o filme Adaptação, de Spike Jonze, com roteiro de Charlie Kaufman e Mais Estranho que a Ficção, de Marc Forster (a metalinguagem de uma narrativa que é construída dentro da própria narrativa). Budapeste (o livro) se torna mais sofisticado pela engenhosidade da confusão do ghost-writer José Costa com seu heterônimo/homônimo húngaro Zsoze Kósta e, principalmente, com o próprio Chico Buarque. Todos os níveis de autoria são questionados no romance de Chico Buarque, e a beleza da vida ficcional de José Costa é (entre outras, apenas destacando uma das belezas do livro) de poder se tornar algo real, palpável, escondido entre as linhas das palavras do livro (objeto físico) como ghost-writer do próprio Budapeste. Na contracapa do livro, inclusive, o nome Zsoze Kósta subtitui o de Chico Buarque, como se fosse uma das milhares de pistas deixadas pelos Beatles sobre a suposta morte de Paul McCartney.
Já o filme de Walter Carvalho, no que toca as palavras, é belíssimo. Impressionante a maneira como o diretor e a atuação brilhante de Leonardo Medeiros conseguem trazer a tona essa personagem ambígua e apaixonada pelas palavras que é José Costa. Numa das cenas mais belas do cinema nacional recente, José deixa um recado na secretária da mulher. A distância entre Budapeste e o Rio de Janeiro produz um eco no telefone. José, tão acostumado ao idioma que o acolheu (o húngaro), não contém a alegria em ficar dizendo palavras aleatórias, apenas para poder se ouvir no português que tanto dominou e que o desprezou. Parece o reencontro do homem com seus primórdios, com sua infância. Lindo demais.
O Budapeste de Walter perde no fim. José Costa olha para a câmera, ela se afasta e, filmando ele e Kriska na cama pelo espelho, aparece cobrindo quase metade do quadro, num plano longo. Além de referência óbvia e chupada de Jean-Luc Godard (o que não é demérito. Afinal, quem não copiou Godard?), o simples aparecimento da câmera não consegue denotar toda a questão da ambiguidade do autor.
Não só porque esse tipo de aparição e confrontamento da câmera já não tem mais o mesmo significado dos anos 60-70, ou seja, já não consegue, por si só, trazer questionamento sobre a natureza do registro cinematográfico, quanto pelo fato de que o próprio filme, por diversas razões, não toca nessa questão da autoria cinematográfica em nenhum momento. Toda a questão do filme é em cima das palavras, do registro dessas palavras, da autoria, do significado dessas palavras, inclusive na bela aparição de Chico Buarque no filme. De súbito, ele tenta transformar essa bela ode às palavras num joguete da metalinguagem do cinema. Não funciona. O filme perde, nos últimos segundos, o seu fio condutor, confunde a sua questão principal. Que fosse uma cena de José Costa lendo Budapeste, de Chico Buarque, ou qualquer coisa do tipo. A câmera, em quadro, sobra.
Em tempo: nosso editor Aristeu Araújo faz sua primeira aparição cinematográfica durante Budapeste. No comecinho do filme, um dos funcionários ghost-writers que digita no apertado escritório. É bem rápido, mas tá lá na telona!

Budapeste, de Walter Carvalho, 2009
Veja o trailer:

14 Julho, 2009| 1:51 pm
Talvez estivesse apenas num mau dia ao assistir esse filme, não sei, fato é que não consegui curti-lo em momento algum. Para mim, eram apenas lindas fotografias passando, mas vazias, desinteressantes. Não li o livro, não sei até que ponto ele foca o que o livro propõe. Mas pareceu-me, em primeiro plano, a procura de descontruir a linguagem, e por fim, a noção de autoria. Em minha cabeça, ao dar o primeiro passo, o segundo já estava incluído. Desconstrução por desconstrução, eu retalharia o filme ao meio. Haha.
Abraço