Há exatamente oito anos, em mais uma disputadíssima Bienal do Livro carioca, me deparei com o surpreendente Seis Contos da Era do Jazz, de F. Scott Fitzgerald. Não tive dúvidas, comprei o livro. O terceiro conto, O Curioso caso de Benjamin Button trazia uma surpresa “inominável”. O bom suspense por trás de uma manhã de setembro e um acontecimento marcante: um nascimento e a ansiedade de um pai, o Sr. Roger Button, que “despertou nervosamente, às seis horas, vestiu-se, ajustou ao pescoço uma gravata impecável e seguiu, apressado, pelas ruas de Baltimore, rumo ao hospital, a fim de verificar se uma nova vida não havia surgido em meio à escuridão da noite”. A descrição de Fitzgerald nos faz visualizar uma cadeia de fotogramas precisos.
Já ao assistir o filme de David Fincher – com o título homônimo ao do conto – percebemos que nem o diretor nem o roteirista, Eric Roth, responsável pela adaptação da história, estavam interessados em preservar o que o conto de Fitzgerald tem de melhor: a ironia. Simplesmente transformaram-no em um melodrama.
A criança do filme é uma criatura cuja idade não podemos definir na primeira mirada. No conto, o bebê é descrito como um velho que aparenta cerca de 70 anos, com cabelos ralos, uma longa barba de um branco esfumaçado, olhos turvos e desbotados. A imagem do corpo dele mudou, e muito, no suporte cinematográfico. No filme, descobrimos novos personagens e situações. Isso não é uma novidade quando a literatura vai para o cinema. Nos deparamos com a constatação de que os filmes, em um número considerável de adaptações, não são fiéis aos livros e de que os suportes narrativos são diferentes. Logo, não precisamos entrar na questão de qual obra é a melhor. É interessante, sim, perceber o processo criativo que começa com o livro e resulta no filme.
Música de Alexandre Desplat para o filme
O problema do Curioso Caso de Benjamin Button é que, além da ironia ser deixada de lado, informações e fatos que envolvem os personagens principais desaparecem junto com as rugas de Brad Pitt (Benjamin Button). O conto parece servir apenas como inspiração para o filme de Fincher, que aproveitou o argumento de Fitzgerald para desenvolver uma espécie de narrativa paralela a história original. O cotidiano de Benjamin, mesmo sendo exótico, não tinha tantas aventuras para além dos mares dos Estados Unidos. A adaptação para o cinema cumpre as premissas básicas do roteiro e da estrutura da ação nos padrões de Syd Field, onde cada situação é colocada para o espectador no tempo certo. Há um momento para rir, outro para ficar tenso, um terceiro para chorar. E bimba! Está pronto o melodrama pipoca que mescla o choro do espectador com um romance piegas entre os personagens principais.
No filme prevalece o ponto de vista da companheira de Benjamin, Daisy (Cate Blanchett) – no conto o nome de sua esposa é Hildegarde, que teve com ele um filho, Roscoe. Daisy e Bemajamin tiveram uma filha, Caroline (Julia Ormong), que conhece a história do pai – da velhice à infância por meio das lembranças da mãe. É está que nos faz perceber o tempo, a juventude e a velhice com uma lupa muito especial.
As mulheres têm mais força no filme do que no conto. Aparece ainda na adaptação as personagens Queenie (Taraji P. Henson) – a negra que cuida da criança que o pai abandonou na porta do asilo de idosos onde ela vive; e Elisabeth Abbot (Tilda Swinton), com quem Benjamin descobre a paixão.
Blanchett, de 38 anos, interpreta sua personagem em várias fases. São notáveis o trabalho de maquiagem e os efeitos especiais na atriz, todas as marcas da idade são apagadas de sua face. O ‘botox digital’ a deixa quase irreconhecível. Brad Pitt passa pelo mesmo processo e fica com o rosto liso, delicado e sem a memória do tempo. A alteração do corpo de ambos os torna parecidos com os bonecos Bob e Barbie.
As características de Daisy e Hildegarde são preservadas nos dois suportes narrativos. As duas jovens são adoradas na fase inicial do casamento. Mas, à medida que os anos passaram e o cabelo mudou o tom, elas deixaram de ser excitantes para Benjamin. No conto, Hildegarde ficou “demasiado assentada, demasiado plácida, demasiado satisfeita, demasiado anêmica em seus estímulos e demasiado sóbria em seus gostos”. Benjamin expõe o desencantamento tanto no filme como no conto. Ele rejuvenesce e se distancia enquanto elas envelhecem.
Outro momento bárbaro da história de Fitzgerald, que não foi para o filme, é quando os moradores de Baltimore supõem que Roscoe é irmão de Benjamin, não seu filho. Eles passam a ser tomados um pelo outro com frequência. O pai torna-se mais jovem que o filho. Um entra na vida adulta, o outro na adolescência. E Roscoe, como seu avô, não quer ver sua família envolvida em escândalo algum. Ele diz para Benjamin: “Quero que você, quando houver visitas, me chame de ‘tio’… Não ‘Roscoe’, mas ‘tio’, compreende? Parece absurdo que um rapaz de quinze anos me chame pelo nome”. Quando Benjamin aparentava 10 anos e brincava com soldadinhos de chumbo nasce seu neto. Cinco anos mais tarde, eles entram no jardim da infância. A juventude desconstrói o personagem e, dessa vez, o flerte do cinema com a literatura rende lágrimas no final.
Veja o trailer do Curioso Caso de Benjamin Button:
De fato, concordo em quase tudo, porém, há algo que devemos pensar: a literatura ainda precisa estar presente no filme?
O conto original, impresso, se utilizando de uma linguagem própria da literatura, nunca poderá ser transposto em sua plenitude LITERÁRIA para o cinema.
Acho que a crítica tem que ir além das comparações entre cinema e literatura. Tem que entender de fato o que significa cinema ou talvez voltar a leitura de Benjamin, não o Button, mas sim o Walter Benjamin…
Sobre o caso de benjamin button eu li uma vez um texto de Charlei Chappelin que ilustrava exatamente tudo o que acontece no filme, falando q ja nascemos velhos e deviamos ir rejuvelhecendo com o tempo, não me lembro onde vi e nem como estava escrito, se alguem sober onde encontar ou se tiver o texto podem me passar por favor?! Fico muito grata.
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1 Junho, 2009| 10:31 pm
De fato, concordo em quase tudo, porém, há algo que devemos pensar: a literatura ainda precisa estar presente no filme?
O conto original, impresso, se utilizando de uma linguagem própria da literatura, nunca poderá ser transposto em sua plenitude LITERÁRIA para o cinema.
Acho que a crítica tem que ir além das comparações entre cinema e literatura. Tem que entender de fato o que significa cinema ou talvez voltar a leitura de Benjamin, não o Button, mas sim o Walter Benjamin…
29 Dezembro, 2009| 9:57 pm
Sobre o caso de benjamin button eu li uma vez um texto de Charlei Chappelin que ilustrava exatamente tudo o que acontece no filme, falando q ja nascemos velhos e deviamos ir rejuvelhecendo com o tempo, não me lembro onde vi e nem como estava escrito, se alguem sober onde encontar ou se tiver o texto podem me passar por favor?! Fico muito grata.