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Gran Torino


Por Fernando Secco

Publicado em 27 de March de 2009

Gran Torino

Os Imperdoáveis, de 1992 e Gran Torino, de 2009

Durante a projeção de Gran Torino, a sensação de que algo grandioso vai acontecer é permanente. Há uma energia se acumulando pouco a pouco e sempre, prestes a ser liberada de forma intensa -  que mais tarde vai culminar com a frase proferida por Eastwood na parte final do filme: “I’ve got fire”. Clint Eastwood encarna a figura do veterano de guerra atormentado pelo passado, que encontra um herdeiro no lugar mais improvável. Talvez até pareça manjado, mas o roteiro de Gran Torino é no mínimo brilhante. Eastwood sabe tratar lugares comuns e situações clichê, principalmente porque coloca, assim como em Os Imperdoáveis (que pode ser pensado como filme-irmão de Gran Torino), todo o filme dentro de algo muito maior.

A semelhança entre Os Imperdoáveis e Gran Torino começa pela temática de faroeste. Não só existe uma releitura do ambiente de faroeste, agora numa vila contemporânea, mas com os mesmos casebres, cercas e espaços vazios, mas também uma re-edição da estrutura do faroeste, desde o herói mal encarado e desprezível que é obrigado, por força externas vindas de um aprendiz inabilidoso e de uma violência iminente, a se retirar de seu isolamento e cumprir seu destino; como também pelo motivo inicial que desencadeia toda a sequência de eventos do filme: o roubo à diligência/carruagem – neste caso, o Gran Torino 1972 de Walt Kowalski, interpretado por Eastwood (curiosidade: o sobrenome é o mesmo de Stanley Kowalski, personagem interpretada por Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado). Esse roubo, ou tentativa de roubo, coloca Walt em contato com Thao, que virá a ser seu aprendiz estabanado (que em Os Imperdoáveis poderia ser o garoto cego, interpretado por Jaimz Woolvett).

Assim como em Os Imperdoáveis, Eastwood revisita essa figura abandonada, solitária e maldita. Enquanto William Munny era um mitológico assassino, Walt Kowalski é um veterano da Guerra da Coreia que acaba sendo considerado um herói. Ambos, claro, caminham inevitavelmente para uma redenção final, mas os caminhos, e os objetivos, são muito diferentes. Apesar passado de Munny e Kowalski serem parecidos – velhos assassinos perseguidos por seus crimes, aposentados e em busca de paz mas, claro, impelidos a uma última jornada, um último pecado – a escolha que cada um toma é diametralmente oposta, apesar de, curiosamente, complementares e cronologicamente coerentes.

Munny, de Os Imperdoáveis, após descobrir que o xerife de Big Whisky (interpretado por Gene Hackman) matou seu parceiro, resolve voltar a beber e ir à cidade cometer sua última chacina descontrolada, na qual nenhum deles tem chance de derrubar o famoso “matador de mulheres e crianças”. Walt, em Gran Torino, após presenciar a casa dos vizinhos ser metralhada por uma gangue (ritual cinematográfico comum para indicar que o barril de pólvora estourou e, portanto, reforça o sentimento de violência  e vingança – como em Cidade de Deus, entre tantos outros), resolve que deve fazer algo. Exatamente o que ainda não sabe, mas “O que quer que seja, eles não terão a menor chance”.

Walt então pensa cuidadosamente e arma seu plano. Enquanto isso, realiza um enorme ritual de despedida, que inclui a única visita de sua vida a uma igreja para uma confissão. A confissão, porém, não é completa. Ainda sentindo o peso do fardo que carrega por anos, Walt só tem uma pessoa a quem recorrer para sua purgação: seu aprendiz Thao. Ele então trancafia o jovem rapaz com sede de vingança no porão, para lhe poupar a vida, e conta seu pecado real e o quanto isso o atormentava. Indagado sobre seu estado de espírito no dia de seu ato final, Walt responde: “Eu estou em paz”.

Ele então se encaminha lentamente para o perdão, para a salvação, para o descanso, a paz. É noite e ele alcança a casa da gangue de orientais. Mas esta chacina é diferente da proposta por William Munny. Walt se deixa assassinar às vistas de todo o bairro, apenas para que a polícia tenha evidências e possa prender todos eles: a redenção final do cowboy, que troca sua descrença profunda (“Eu rezei para que a polícia viesse, mas ninguém respondeu”), pela paz de uma morte digna e significativa.

Em seu testamento Walt confirma o que já parecia ter ocorrido. Ele encontrou um sucessor, um herdeiro, alguém que pudesse manter algo seu no mundo após sua ida. Mas, diferente de si, alguém que possa manter sua integridade. Thao herda o Gran Torino 1972 que tentou roubar, mas apenas “se não pintá-lo com estampas de fogo ou colocar aerofólios, como fazem todos os chineses”. Apenas se mantiver sua lealdade, apenas se mantiver o que restou de Walt Kowalski na Terra. No plano final, o mais bonito de todo o filme, Thao dirige junto ao cão de Walt, para o infinito e além – rumo ao pôr-do-sol, como em todo bom faroeste. Clint Eastwood faz, aos 79 anos, seu melhor filme em muitos anos, talvez um dos melhores de sua carreira.

Veja o trailer legendado de Gran Torino:

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