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Foi Apenas Um Sonho


Por Sofia Helena

Publicado em 25 de March de 2009

Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes

“How do you break free without breaking apart?”

Se você não foi ao cinema assistir Foi apenas um sonho porque o filme marca o reencontro nas telas dos atores Kate Winslet e Leonardo DiCaprio após Titanic (1997), poderia ter atentado para o fato de que o filme foi dirigido por Sam Mendes (o mesmo de Soldado Anônimo e Beleza Americana) e não por James Cameron. Talvez tenha sido a péssima tradução do título do filme para o português (o original é Revolutionary Road) que o tenha desestimulado. Mas também aqui você cometeu o descuido de não conferir o título original e saber que o filme é baseado na obra homônima de Richard Yates, publicada em 1961.

Não se culpe por esses equívocos inocentes, meu trabalho aqui será fazer o meu melhor para que você saia para o cinema mais próximo em que o filme estiver passando antes de terminar de ler este texto. São muitas as razões que me motivam a influenciá-lo a pagar um caro ingresso de cinema: as atuações impecáveis de Kate Winslet e Michael Shannon; um roteiro muito bem escrito por Justin Haythe; um filme bem dirigido e editado (apesar do uso constante de flashbacks); uma bela trilha sonora e, acima de tudo, o fato do filme tratar da eterna e essencial questão humana do que significa “viver bem”.


Música tema do filme (The Gipsy, por Ink Spots),
que retrata a personagem April Wheeler

Tema caro aos grandes filósofos, ocupou Platão, Aristóteles, Kant, Nietzsche e tantos outros. Pelo menos um elemento é comum à maioria deles: “Seja você mesmo!”. Esta frase de Nietzsche resume em uma sentença e com palavras simples as teorias de “vocação” de Platão, de Eudaimonia de Aristóteles, de dever para consigo mesmo de Kant e, de certo modo, toda filosofia do próprio Nietzsche. O verdadeiramente importante aqui é que não houve filósofo na história do pensamento ocidental e oriental que não “implorou” aos seres humanos que se conscientizassem da escassez de tempo na urgente tarefa (e não só tarefa, mas até mesmo exigência para poder se considerar um ser humano) de constantemente contemplar a si próprio (suas condições, personalidade, caráter, capacidades, habilidades, talentos, padrões de ação e pensamento) e ser sinceramente quem se é ou tornar-se quem se é, para parafrasear Nietzsche novamente. Não vou entrar aqui na questão de se há um “eu” que deve ser descoberto ou construído (há teorias que defendem maravilhosamente as duas opções), cabe a você refletir sobre o que faz mais sentido para você e continuar a partir daí.

April Wheeler (Kate Winslet) reflete sobre isso no filme e percebe que ela e o marido caíram na arapuca que casar e ter filhos pode se tornar. Somos como todos os outros, ela diz, estamos igualmente iludidos. Nossa existência nesse lugar se baseia na premissa de que somos especiais, mas nunca fomos especiais ou destinados a nada. Não somos superiores aos que nos cercam. Caímos na ridícula ilusão de que devemos desistir da vida no momento em que temos filhos e viemos nos punindo mutuamente por isso.

Foi Apenas Um Sonho, de Sam MendesEla sugere a seu marido, Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio), uma mudança drástica: tirar o dinheiro do banco, vender a casa e o carro e ir morar em Paris. Frank largaria o emprego que detesta e April trabalharia para sustentá-los e dar a chance ao marido de ter o tempo e a liberdade de descobrir seus talentos e desejos para então exercê-los e viver a vida que quer. Frank primeiramente acha a ideia irrealista, mas depois é convencido pelo argumento da esposa de que irrealista é um homem inteligente trabalhar anos a fio em um emprego que não suporta, morando numa cidade que não aguenta, com uma mulher que também odeia essas mesmas coisas.

O casal compartilha seus planos com amigos e colegas que dão gargalhadas e acham a ideia insana. E assim, é justamente o personagem “não são” do filme que irá compreender e admirar a mudança dos Wheeler. John Givings (Michael Shannon), filho dos vizinhos do casal, é PhD em Matemática e um intelectual viajado que foi internado numa instituição psiquiátrica. John é a voz da razão entre aqueles que moram na Revolutionary Road e clama pelo fim da hipocrisia que o cerca, sem medo ou demora sabe fazer uso dessa voz em alto e bom som e reivindicar que as máscaras de cada um caiam.

E as máscaras caem. “A máscara é tão bonita que tenho medo do rosto”, disse Alfred de Musset. Cai a máscara de Frank, que dizia querer “sentir verdadeiramente as coisas”, e o tempo e a liberdade oferecidos pela sua companheira são substituídos pelo medo. Medo de fracassar frente ao projeto de viver “bem”, medo de viver como se deseja. Medo de tornar-se quem se é. Compreensível seu medo. Humano. Frank veste a máscara novamente e escolhe “the road most travelled by” (para brincar com as palavras de Robert Frost).

April, um nome americano comum que significa “Abril” – o mês da primavera – quer renascer e não aceitará fazê-lo através de mais um filho ou uma outra casa, maior. Ela diz ter visto um outro futuro e agora não consegue mais parar de vê-lo. Ela quer a verdade, quer viver de verdade, quer que seu marido e seus filhos se desvencilhem da ilusão em que vivem. Ela relembra a Frank que um dia eles já viveram de verdade, e afirma que mesmo após tantos anos de mentira, ninguém esquece a verdade, apenas aprende a mentir melhor.

Como libertar-se sem se despedaçar? (How do you break free without breaking apart?) é a pergunta que serve de subtítulo ao filme. Desconstruir as ilusões que nos acompanharam por tantos anos e livrar-nos de hábitos (que muitas vezes nem mesmo nos dão real prazer), mas que são seguidos por todos ao nosso redor, não é nada fácil. Frank desiste e April, ao seu modo, desiste com ele… e dele. Casamentos terminam por muito pouco, mas este talvez seja o melhor motivo para separar-se (break apart): o modo de pensar e a visão de mundo do casal tornaram-se incompatíveis.

Capa do livro Revolutionary RoadAo ser questionado sobre o título do seu livro (no qual o filme é baseado), Richard Yates disse: “…durante os anos cinquenta havia um desejo geral por conformidade por todo este país – de maneira nenhuma apenas nos subúrbios – um tipo de apego cego e desesperado à segurança e à proteção a qualquer custo. Isso foi politicamente exemplificado pela administração Einsenhower e pela caça às bruxas de Joe McCarthy. De qualquer modo, um grande número de americanos estava profundamente perturbado com tudo isso – eles sentiam que era uma traição absoluta do nosso melhor e mais corajoso espírito revolucionário – e foi esse espírito que tentei incorporar na personagem de April Wheeler. Eu queria que o título sugerisse que a via revolucionária de 1776 chegou muito perto de algo como a morte no final dos anos cinquenta.”

“..chegou muito perto…” – o espírito revolucionário chega muito perto da morte diariamente, por toda parte e para cada um de nós. Isso não diminui em nada, no entanto, a citada exigência urgente de libertar-se e de tentar não se despedaçar no processo, ainda que tal tentativa possa estar fadada ao fracasso.

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*Sofia Helena é estudante de Filosofia e iniciante na redação de ensaios cinematográficos.

Veja também

Site oficial de Richard Yates

Trechos do livro em Português

Roteiro do filme (em inglês)

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4 Commentários sobre 'Foi Apenas Um Sonho'

  1.  
    Luiz Augusto dos Reis

    1 May, 2009| 7:25 pm


     

    Sofia Helena, estudante de filosofia e iniciante na redação de ensaios cinematográficos…pelo modo como menciona o primeiro assunto e domina já o segundo, eu diria que tu tem um futuro e tanto na área, meu parabéns!
    Abraços de São José dos Campos Desolados
    Luiz Augusto dos Reis.

  2.  
    Luiz Augusto dos Reis

    1 May, 2009| 7:28 pm


     

    Aliás, foi apenas um sonho é horrível, não? se ao menos fosse foi apenas uma ilusão…já taria (quase, quase msm!) bom…

  3.  
    Luiz Augusto dos Reis

    1 May, 2009| 7:51 pm


     

    tá bom vai, sendo algo rigoroso, eu daria 9.75 pra o teu ensaio….
    bjs

  4.  
    Christiana Freitas

    23 August, 2009| 5:48 pm


     

    Liebesophie, como sempre, arrasando! Nada como ter o dom das palavras escritas. Vou assitir ao filme ainda hoje.
    Beijos, Chrisota

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