
A fotógrafa carioca Claudia Jaguaribe sempre esteve em contato com as imagens. Antes da fotografia ela já traçava formas e criava imagens por meio de desenhos, gravuras e esculturas. Seu trabalho envolve uma vasta pesquisa e experimentação com diferentes mídias – fotografia, vídeo e internet. Sob o foco de sua objetiva estão a cidade, a identidade brasileira, o tempo, a paisagem e a subjetividade. Claudia, que vive e trabalha em São Paulo, pensa o tempo todo em imagens e, na entrevista que nos concedeu, fala do fascínio pelo movimento e da conexão entre cinema e fotografia.
Revista Moviola: Quando surgiu a sua fascinação pela fotografia?
Claudia Jaguaribe: A fotografia surgiu para mim quando estava cursando história da arte na Boston University. Sempre desenhei, fiz gravura e escultura, mas, quando comecei a fotografar, se abriram muitos outros caminhos. Vi que fotografando poderia integrar muitos elementos plásticos e conceituais, e ter uma relação mais direta com o mundo fora do atelier.
Revista Moviola: Por que a cidade grande é um dos objetos de desejo de sua câmera?
Claudia: O cotidiano é com certeza um tema dominante para todos os fotógrafos e a cidade é parte desse cotidiano. É um mundo com muitos territórios diferentes para se explorar e possibilita diversos tipos de tematização e abordagens plásticas.
Revista Moviola: Como é o seu trabalho de pesquisa para encontrar a forma final das imagens?
Claudia: Cada trabalho gera uma necessidade de uma pesquisa de meios. O conceito e a forma vão surgindo juntos, mas, intuitivamente, o conceito do trabalho sugere a forma. Por exemplo: na mostra Arquitetura do Medo havia uma necessidade de expor ao maior número possível de pessoas a questão, portanto, a internet tinha que ser o meio e eu tinha que assimilar a sua linguagem. O site e os vídeos foram todos pensados para o internauta ter a possibilidade de ver o resultado apesar de haver uma instalação com os vídeos na galeria.
Revista Moviola: A Arquitetura do Medo nasceu a partir de informações coletadas no seu site. Você pode contar como começou esse projeto?
Claudia: Criei um site especificamente para o projeto, depois fiz a instalação e, novamente, criei outro site com as respostas e vídeos. O trabalho é o resultado de um longo processo de depuração meu e da Beatriz Bracher, que redigiu a forma final dos textos. Havia mais de 3 mil respostas, foi preciso catalogar e processar todas as informações para dar um rumo aos vídeos. Foi um processo que partiu das informações, mas tomamos a liberdade de juntar textos para criar um corpo único. Em alguns casos, os vídeos foram diretamente calcados nas respostas. Em outros trabalhos utilizamos as respostas de forma mais indireta, privilegiando a emoção e não os fatos relatados.
Revista Moviola: Qual a influência do cinema no seu trabalho?
Claudia: Ela vem principalmente por meio da fotografia. A iluminação e os enquadramentos trazem uma dinâmica diferente da fotografia. As imagens, entre cenas importantes em que nada acontece, estabelecem pontos da narrativa que são referencias importantes para fotografia. O desenrolar contínuo da imagem é o que mais me fascina porque te transporta integralmente para dentro do assunto.
Revista Moviola: Como você ver a ligação entre cinema e fotografia?
Claudia: A fotografia está contida no cinema. Não vejo uma sem a outra até porque muitos dos meus trabalhos que se tornam vídeos ou pequenos filmes eram originalmente imagens fixas.
Revista Moviola: O estranhamento do olhar é mais forte na fotografia ou no cinema?
Claudia: O cinema pela multiplicidade de imagens contida em um filme cria mais situações. Contudo, hoje, a fotografia tem múltiplos recursos de construção. Cada imagem pode ser feita e refeita de mil formas. A fotografia digital trouxe uma liberdade inigualável.
Revista Moviola: Você fez primeiro as fotos do Carandiru para o livro Carandiru – Registro Geral – junto com os fotógrafos Marlene Bergamo, Bob Wolfenson, Paulo Vainer, Edouard Fraipont, Thomas Baccaro e Cris Bierrenbach – ou para o filme de Hector Babenco?
Claudia: O Hector me convidou para fazer as fotos de cena para o livro. Como fotografei muitos dias de filmagem, resolvi fazer o curta Carandiru a partir das imagens criando uma nova história baseada no filme. São imagens de muito impacto visual, com uma trilha muito densa do André Mehmari.
Revista Moviola: Quais trabalhos de still você realizou para o cinema?
Claudia: Só para o Carandiru e para o Ariel.
Revista Moviola: Quando você iniciou suas pesquisas em vídeo?
Claudia: O meu trabalho em vídeo começou no Projeto Aeroporto. Senti necessidade de expandir o trabalho para imagens em movimento. Era importante ter imagens que tratassem da questão do tempo, a imagem da turbina rodando e as malas que saem na esteira são muito fortes e retratavam essa passagem do tempo. O trabalho demandava imagens bastante conceituais e fiz sua exposição em três telas, num ambiente em semicírculo. A turbina gira e, lentamente, o diafragma muda alternando cor e velocidade.
Revista Moviola: O que você procura nos vídeos?
Claudia: As minhas fotos são, em geral, pensadas em séries ou sequencias, mas nem sempre a fotografia dá conta de uma visão mais complexa ou que contenha elementos do movimento. O som é outro fator fundamental para mim. É um grande aliado da imagem, ajuda a construir o ambiente e conduz psicologicamente o espectador.
Revista Moviola: Quais vídeos você realizou?
Claudia: Carandiru, Fantasia, Caraminhola, O vôo, Para aonde eu vou?, Quando eu vi, Você tem medo do que? Ariel, Tudo é Sofia, e Roma.
Revista Moviola: E o projeto do curta Ariel, que você dirige junto com Mauro Batista, como surgiu?
Claudia: Eu estava iniciando o projeto do Medo, e o Mauro estava pensando comigo alguns aspectos do projeto. Fui filmar na casa dele e gravamos uma sequencia de um suicídio com o Mauro como ator. Algum tempo depois, o pai dele se suicidou da mesma forma. Mauro foi para o enterro do pai e fotografou alguns vestígios dos últimos dias. Quando ele voltou, decidimos fazer o curta e incorporar as imagens porque a coincidência era perturbadora. Parecia que o que havíamos gravado era um ensaio para o Ariel, quase uma premonição.
Revista Moviola: Quais diretores de fotografia você considera emblemáticos no cinema nacional contemporâneo?
Walter Carvalho, Charlone, Affonso Beato e Lula Carvalho.
Revista Moviola: Quais sentimentos surgem e afetam o seu trabalho no dia-a-dia?
Claudia: O meu trabalho é decorrente de interesses ou preocupações do dia-a-dia e de questões que não são necessariamente do meu cotidiano. Fotografo ou penso em imagens o tempo todo, mas, muitas vezes, há um longo período de amadurecimento para se ter a forma final de um projeto. Preciso estar constantemente alerta e me exercitando visualmente e conceitualmente. Há muitos anos eu fotografo paisagens e nunca tinha pensado em fazer um trabalho especificamente sobre a natureza. Mas a partir da consciência cada vez mais radical da possibilidade do seu fim, fiz a série Quando eu vi que é sobre o fim da paisagem. Por outro lado, o projeto do Medo foi reflexo da constante sensação de insegurança no dia-a-dia e da violência a que somos submetidos no nosso cotidiano urbano. Faço yoga regularmente e acho que o treino de concentração tem me ajudado muito a perceber coisas que passavam desapercebidas.
Revista Moviola: As imagens que você produz são o seu real? Como acontece o diálogo das imagens com a realidade, o seu repertório, a ficção e o efêmero?
Claudia: Para mim estas questões se apresentam como limites a serem contornados. O que me interessa é criar um corpo de trabalho que tenha um sentido próprio forte. Uso a fotografia ou o vídeo como meios ou base para documentar, sem necessariamente me ater ao real, é como um escritor que utiliza a linguagem para falar de um universo próprio, mas que depende do mundo exterior. O ponto de vista que assumo em cada trabalho é o que no final define o resultado. No caso do projeto do Medo fiz uma imensa investigação do imaginário dos outros, entretanto, o resultado final é um filtro muito pessoal.
Revista Moviola: Quais os seus projetos atuais?
Claudia: Fiz uma exposição em Roma, em fevereiro, com imagens e vídeos feitos durante uma residência minha lá. Tenho um livro sobre a série Quando eu vi; uma exposição na galeria Paulo Darzé, na Bahia, e um site para o Museu de Arte Moderna da Bahia. Também tenho um novo projeto de fotografia sobre a desaceleração do tempo.