Revista Moviola » As Imagens de Claudia Jaguaribe

As Imagens de Claudia Jaguaribe


Por Elis Galvão

Publicado em 12 de March de 2009


A fotógrafa carioca Claudia Jaguaribe sempre esteve em contato com as imagens. Antes da fotografia ela já traçava formas e criava imagens por meio de desenhos, gravuras e esculturas. Seu trabalho envolve uma vasta pesquisa e experimentação com diferentes mídias – fotografia, vídeo e internet. Sob o foco de sua objetiva estão a cidade, a identidade brasileira, o tempo, a paisagem e a subjetividade. Claudia, que vive e trabalha em São Paulo, pensa o tempo todo em imagens e, na entrevista que nos concedeu, fala do fascínio pelo movimento e da conexão entre cinema e fotografia.


Revista Moviola: Quando surgiu a sua fascinação pela fotografia?

Claudia Jaguaribe: A fotografia surgiu para mim quando estava cursando história da arte na Boston University. Sempre desenhei, fiz gravura e escultura, mas, quando comecei a fotografar, se abriram muitos outros caminhos. Vi que  fotografando poderia integrar muitos elementos plásticos e conceituais, e ter uma relação mais direta com o mundo fora do atelier.

Revista Moviola: Por que a cidade grande é um dos objetos de desejo de sua câmera?

Cláudia JaguaribeClaudia: O cotidiano  é com certeza um tema dominante para todos os fotógrafos e a cidade é parte desse cotidiano. É um mundo com muitos territórios diferentes para se explorar e  possibilita diversos tipos de tematização e abordagens plásticas.

Revista Moviola: Como é o seu trabalho de pesquisa para encontrar a forma final das imagens?

Claudia:
Cada trabalho gera uma necessidade de uma pesquisa de meios. O conceito e a forma vão surgindo juntos, mas, intuitivamente, o conceito do trabalho sugere a forma. Por exemplo: na mostra Arquitetura do Medo havia uma necessidade de expor ao maior número possível de pessoas a questão, portanto, a internet tinha que ser o  meio e eu tinha que assimilar a sua linguagem. O site e os vídeos foram todos pensados para o internauta ter a possibilidade de ver o resultado apesar de haver uma instalação com os vídeos na galeria.

Revista Moviola: A Arquitetura do Medo nasceu a partir de informações coletadas no seu site. Você pode contar como começou esse projeto?


Claudia:
Criei um site especificamente para o projeto, depois fiz a instalação e, novamente, criei outro site com as respostas e vídeos. O trabalho é o resultado de um longo processo de depuração meu e da Beatriz Bracher, que redigiu a forma final dos textos. Havia mais de 3 mil respostas, foi preciso catalogar e processar todas as informações para dar um rumo aos vídeos. Foi um processo que partiu das informações, mas tomamos a liberdade de juntar textos para criar um corpo único. Em alguns casos, os vídeos foram diretamente calcados nas respostas. Em outros trabalhos utilizamos as respostas de forma mais indireta, privilegiando a emoção e não os fatos relatados.

Revista Moviola: Qual a influência do cinema no seu trabalho?

Claudia: Ela vem principalmente por meio da fotografia. A iluminação e os enquadramentos trazem uma dinâmica diferente da fotografia. As imagens,  entre cenas importantes em que nada acontece, estabelecem pontos da narrativa que são referencias importantes para fotografia. O desenrolar contínuo da imagem é o que mais me fascina porque te transporta integralmente para dentro do assunto.

Revista Moviola: Como você ver a ligação entre cinema e fotografia?


Claudia:
A fotografia está contida no cinema. Não vejo uma sem a outra até porque muitos dos meus trabalhos que se tornam vídeos ou pequenos filmes eram originalmente imagens fixas.

Revista Moviola: O estranhamento do olhar é mais forte na fotografia ou no cinema?

Claudia: O cinema pela multiplicidade de imagens contida em um filme cria mais situações. Contudo, hoje, a fotografia tem múltiplos recursos de construção. Cada imagem pode ser feita e refeita de mil formas. A fotografia digital trouxe uma liberdade inigualável.

Revista Moviola: Você fez primeiro as fotos do Carandiru para o livro Carandiru – Registro Geral  – junto com os fotógrafos Marlene Bergamo, Bob Wolfenson, Paulo Vainer, Edouard Fraipont, Thomas Baccaro e Cris Bierrenbach – ou para o filme de Hector Babenco?

Claudia: O Hector me convidou para fazer as fotos de cena para o livro. Como fotografei muitos dias de filmagem, resolvi fazer o curta Carandiru a partir das imagens criando uma nova história baseada no filme. São imagens de muito impacto visual, com uma trilha muito densa do André Mehmari.

Revista Moviola: Quais trabalhos de still você realizou para o cinema?

Claudia:
Só para o Carandiru e para o Ariel.

Revista Moviola: Quando você iniciou suas pesquisas em vídeo?

Claudia: O meu trabalho em vídeo começou no Projeto Aeroporto. Senti necessidade de expandir o trabalho  para imagens em movimento. Era importante ter imagens que tratassem da questão do tempo, a imagem da turbina rodando e as malas que saem na esteira são muito fortes  e retratavam essa passagem do tempo. O trabalho demandava imagens bastante conceituais e fiz sua exposição em três telas, num ambiente em semicírculo. A turbina gira e, lentamente, o diafragma muda alternando cor e velocidade.

Revista Moviola: O que você procura nos vídeos?

Claudia: As minhas fotos são, em geral, pensadas em séries ou sequencias, mas nem sempre a fotografia dá conta de uma visão mais complexa ou que contenha elementos do movimento. O som é outro fator fundamental para mim. É um grande aliado da imagem, ajuda a construir o ambiente e conduz psicologicamente o espectador.

Revista Moviola: Quais vídeos você realizou?

Claudia: Carandiru, Fantasia, Caraminhola, O vôo, Para aonde eu vou?, Quando eu vi, Você tem medo do que? Ariel, Tudo é Sofia, e Roma.

Revista Moviola: E o projeto do curta Ariel, que você dirige junto com Mauro Batista, como surgiu?

Claudia: Eu estava iniciando o projeto do Medo, e o Mauro estava pensando comigo alguns aspectos do projeto. Fui filmar na casa dele e gravamos uma sequencia de um suicídio com o Mauro como ator.  Algum tempo depois, o pai dele se suicidou da mesma forma. Mauro foi para  o enterro do pai e fotografou alguns vestígios dos últimos dias. Quando ele voltou, decidimos fazer o curta e incorporar as imagens porque a coincidência era perturbadora. Parecia que o que havíamos gravado era um ensaio para o Ariel, quase uma premonição.

Revista Moviola: Quais diretores de fotografia você considera emblemáticos no cinema nacional contemporâneo?

Walter Carvalho, Charlone, Affonso Beato e Lula Carvalho.

Revista Moviola: Quais sentimentos surgem e afetam o seu trabalho no dia-a-dia?

Claudia: O meu trabalho é  decorrente de interesses ou preocupações do dia-a-dia e de questões que não são necessariamente do meu cotidiano.  Fotografo ou penso em imagens o tempo todo, mas, muitas vezes, há um longo período de amadurecimento para se ter a forma final de um projeto. Preciso estar constantemente alerta e me exercitando visualmente e conceitualmente. Há muitos anos eu fotografo  paisagens e nunca tinha pensado em fazer um trabalho especificamente sobre a natureza. Mas a partir da consciência cada vez mais radical da possibilidade do seu fim, fiz  a série Quando eu vi que é sobre o fim da paisagem. Por outro lado, o projeto do Medo foi reflexo da constante sensação de insegurança no dia-a-dia e da violência a que somos submetidos no nosso cotidiano urbano. Faço yoga regularmente e acho que o treino de concentração tem me ajudado muito a perceber coisas que passavam desapercebidas.

Revista Moviola: As imagens que você produz são o seu real? Como acontece o diálogo das imagens com a realidade, o seu repertório, a ficção e o efêmero?

Claudia: Para mim estas questões se apresentam como limites a serem contornados. O que me interessa é criar um corpo de trabalho que tenha um sentido próprio forte. Uso a fotografia ou o vídeo como meios ou base para documentar, sem necessariamente me ater ao real, é como um escritor que utiliza a linguagem para falar de um universo próprio, mas que depende do mundo exterior. O ponto de vista que assumo em cada trabalho é o que no final define o resultado. No caso do projeto do Medo fiz uma imensa investigação do imaginário dos outros, entretanto, o resultado final é um filtro muito pessoal.

Revista Moviola: Quais os seus projetos atuais?

Claudia: Fiz uma exposição em Roma, em fevereiro, com imagens e vídeos feitos durante uma residência minha lá. Tenho um livro sobre a série Quando eu vi; uma exposição na galeria Paulo Darzé, na Bahia, e um site para o Museu de Arte Moderna da Bahia. Também tenho um novo projeto de fotografia  sobre a desaceleração do tempo.

Compartilhe:
  • Twitter
  • Facebook
  • MySpace
  • Digg
  • del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Google Bookmarks
  • Live



Deixe um comentário

(required)

(required)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

11 de March de 2010

Estão abertas as inscrições para a 9ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. O evento acontece de 19 de junho a 4 de julho na capital catarinense, com exibição de filmes nacionais e estrangeiros. Podem se inscrever para participar da mostra competitiva curtas nacionais de todos os gêneros e formatos, mas com foco no universo [...]

Por Elis Galvão

19 de February de 2010

Neste fevereiro de sol pleno, Emílio Doningos (também conhecido como DJ Saens Peña) divulgou o clipe musical que finalizou e cuja direção compartiu com Gergório Mariz. A produção é da Osmose Filmes e Maria Gorda Filmes.  A canção Cira, Regina e Nana é interpretada por Lucas Santtana. A música faz parte do quarto disco do [...]

Por Revista Moviola

19 de February de 2010

Estão abertas as inscrições para o Grande Prêmio Internacional URTI (Universidade Radiofônica e Televisual Internacional) do Documentário de Autor. Trata-se do primeiro Grande Prêmio Internacional de Rádio-TV com 54 países participantes. Cada canal de teledifusão é convidada a apresentar um ou dois documentários no máximo.
Prêmio:
- Para o Grande Prêmio: 10.000 dólares para o diretor contemplado.
- [...]

Por Paulo Ricardo de Almeida

4 de February de 2010

Júri da Crítica
Prêmio Aurora de Melhor Filme – Estrada para Ythaca, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti.
Júri Jovem
Prêmio Aurora de Melhor Filme – Estrada para Ythaca, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti.
Menção Honrosa – Mulher à Tarde, de Afonso Uchoa.
Júri Popular
Melhor Longa – Herbert de Perto, de [...]

Por Paulo Ricardo de Almeida

28 de January de 2010

Estranho fenômeno atmosférico (que pode ou não se relacionar com meteorito que caiu na praia) aflige Recife: a cidade, antes tropical, esfriou, as temperaturas não superam os 14o. C e as chuvas são constantes. Para cobrir o acontecimento, Kléber Mendonça Filho escala repórter de língua espanhola, já que apenas o olhar do outro, de fora, [...]

É Tudo Verdade Animação Anima Mundi Cachaça Cinema Clube Cannes Cavi Borges CCBB Cineclube Cinema cinema brasileiro Cinema francês Cinema universitário Curta Curta-metragem Curtas Daniela Thomas Debate Documentário Domingos Oliveira Entrevista FBCU Festival Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival internacional festrio For Rainbow Gay Iraque Karim Aïnouz Literatura Música Memória Minas Gerais Mix Brasil Morte Mostra Mostra de Tiradentes Odeon Poemas Poesia Première Brasil Rio de Janeiro Teatro Versos

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.