Histórias de Morar e Demolições, de Andre Costa, 60′, 2007

A vontade de assistir a Histórias de Morar e Demolições veio de uma identificação pessoal com o objeto de estudo do filme: 4 famílias que, devido a reorganização urbana da cidade de São Paulo, terão suas casas demolidas (para que se construam prédios e/ou condomínios no lugar). O filme se propõe a registrar, em vídeo, as casas mal fadadas, afim de manter viva a memória de seus habitantes de muitos anos.
A equipe do filme então funda uma empresa de vídeo fictícia e espalha cartazes e flyers pela cidade afim de, como dizem, achar personagens. Feito isso e achadas as tais personagens, a equipe deixa com elas uma câmera digital para que tirem fotos e gravem sons da casa. Posteriormente, vão à casa da pessoa para entrevistá-la e filmar o lugar. E é aí que entra a grande questão do filme.
Há um enorme distanciamento, desde o começo do filme, entre a equipe e os moradores das casas. Chega a ser estranho que num filme que se propõe tão pessoal esse distanciamento seja tão evidente. O filme todo soa falso, distante, mesmo quando vemos cenas da equipe na sala de produção tomando decisões acerca do filme (cenas que, talvez terrivelmente influenciadas por reality shows como O Aprendiz, são completamente dispensáveis), mesmo quando vemos as histórias das vidas dessas pessoas sendo contadas em mais detalhes (a única exceção à isso é a da terceira casa mostrada, sobre a qual falarei mais a frente).
Essa sensação de distanciamento não é meramente intuitiva. Histórias de Morar e Demolições comete, de início, um erro fundamental: ao colocar nas mãos dos moradores uma câmera digital e, ao longo de todo o filme, se recusar a utilizar essas imagens (até mesmo proibindo as pessoas de as fazerem, pedindo que gravem apenas sons), Andre Costa acaba por propor um dispositivo-engodo. Tenta registrar memórias muito pessoais, mas ao fazer suas próprias imagens (mesmo que guiadas pelo olhar dos moradores), nega completamente a capacidade delas mesmas de expressar esses sentimentos aparentemente tão caros ao filme. É como se ele se dissesse mais capaz de fazê-lo do que suas personagens, como se as considerasse menos aptas.
Isso não só parece ultrajante como relação pessoal, mas como percepção do próprio momento cinematográfico em que o filme é lançado: algo como a década do filme caseiro. Os melhores momentos do filme, talvez os únicos nos quais exista alguma relação realmente afetuosa e humana nos 60 minutos de projeção, são quando os habitantes da terceira casa mostrada abrem seu arquivo de fotos P&B e filmes Super8. Eis os únicos momentos do filme onde os registros imagéticos caseiros e pessoais são respeitados.
Andre Costa parece não entender suas personagens, parece não compreender a profundidade possível do filme que tem (ou tinha) em mãos. Em outro momento, essa falha de percepção se mostra bastante evidente também: a única cena de demolição presente no filme (um rapaz derrubando uma parede e comemorando sua vitória) é exibida apenas após os créditos, cercada de imagens de cobertura completamente vazias e aleatórias. Talvez o mais belo e forte plano do filme é jogado despretensiosamente, talvez ingenuamente, no momento menos oportuno e menos evidente. Falta sutileza e sofisticação que, se transparece na fotografia, na edição de som e na irritante e pseudo-emotiva música de piano que fica tilintando durante quase todos os minutos do filme, transparece ainda na falta de tato e humanidade que são quase o resumo do filme.
PS: É provável que tudo isso tenha me afetado mais ainda devido à minha forte relação com o ambiente (nasci e vivi 14 anos em Campo Belo, bairro de São Paulo citado no filme), os temas de urbanização, reorganização urbana e memória afetiva urbana são muito caros a mim. Penso que fico mais afetado, ou chateado, pelo fato de Histórias de Morar e Demolições ter todas as características de um filme que eu faria, mas que atinge tudo o que eu não gostaria de atingir. É quase um motivo para que eu reveja e repense, talvez de maneira grave, todo cinema que proponho, como realizador.
13 February, 2009| 10:47 am
entrevistei o andré uma vez, quando cobria mercado imobiliário prum jornalão de são paulo, e tinha grande expectativa de ver o filme pronto, porque memória afetiva urbana tb é um tema caro a mim… vou ver de todo jeito, mas, depois de ter lido sua crítica (coisa que gosto de evitar, ler resenhas antes do filme, e não ler os seus textos!) acho que já vou chegar meio desapontada… mas, quem sabe, um dia eu tb não veja o seu filme sobre o tema?
19 February, 2009| 2:16 pm
Não entre no cinema com impressões prontas não. Só fiquei desapontado pq esperava bastante coisa, dado o tema.
Quando sair filme meu sobre o tema, avisarei! haha