O Fim da Picada, 2008, de Christian Saghaard.

Após orgia satanista na praia, em 1850, Macário se encontra com o Diabo, com quem segue viagem para a cidade de São Paulo. O demônio, no entanto, engana-o, uma vez que leva Macário para a São Paulo do século XXI, metrópole com 20 milhões de habitantes onde o herói passa a viver à margem da sociedade.
Livremente inspirado em Álvares de Azevedo, O Fim da Picada se nutre de fontes diversas: cultura afro-brasileira (o Diabo encarna na pele de Exú-Lebara, entidade fantástica feminina), cinema experimental (sobretudo a cine-magia de Jairo Ferreira) e gêneros fílmicos estabelecidos, tais quais ficção científica (Macário vaga pela cidade com capacete de astronauta, ao som de Assim Falou Zaratrusta, de 2001: Uma Odisséia no Espaço) e terror (a presença de Zé do Caixão, a sequência gore em que a mãe perde e recupera a cabeça). A referência principal de Christian Saghaard, contudo, é Sérgio Bianchi, já que O Fim da Picada demonstra a mesma ânsia pelo choque a qualquer custo que Cronicamente Inviável.
Ao transportar Macário de 1850 para 2008, Christian Saghaard entra no terreno pantanoso da alegoria: em O Fim da Picada, a São Paulo contemporânea representa o inferno, premissa que o diretor reforça à exaustão, não apenas com a onipresente sentença dita por quase todas as personagens (“antes, o diabo perseguia os homens, hoje, os homens perseguem o diabo”), como também através da hiper-inflação de sons e de imagens: planos sobrepostos, cores invertidas, travellings e movimentos de câmera insanos, música e ruídos estridentes. Curiosamente, o filme obtém efeito oposto, já que anula a cidade enquanto espaço de representação. São Paulo é o caos – mas por que? que forças sociais, políticas e econômicas interagiram ao longo de século e meio para transformar o maior centro urbano brasileiro na visão do apocalipse?
Para Christian Saghaard, assim como para Sérgio Bianchi, o mal é endêmico. O Diabo se apossou de São Paulo, desceu à terra na forma do Saci Pererê para se afirmar, mas nem precisava: quando se observa o comportamento da mãe hipócrita, mais preocupada com o carro e em malhar do que com o próprio filho, ou da criança que adora violência, ou da mulher que sacaneia o cachoro, chega-se à conclusão que os problemas da metrópole decorrem da vilania em si de seus moradores.
Se O Fim da Picada não se liberta do vício de Cronicamente Inviável, melhor assistir à trilogia de José Mojica Marins (À Meia-Noite Levarei Sua Alma, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver e Encarnação do Demônio), onde o diabo se confunde com as alucinações da mente perturbada de Zé do Caixão e na qual os habitantes são vítimas das crendices populares. Ou ao clássico Fausto, de F. W. Murnau, em que Mephisto e o anjo Gabriel duelam pela alma dos homens, os quais jamais perdem seu livre-arbítrio.

Veja a cobertura completa da 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes
31 Maio, 2009| 11:48 pm
Ruim de doer.
12 Setembro, 2009| 2:58 am
Muito alternativo. Adorei. Ótima leitura da vida metropolitana, com as mesmas críticas de um filme convencinal, mas com uma roupagem fantástica de delirante.
Não recomendado para quem gosta de musicais.
25 Setembro, 2009| 12:25 am
Christian, adorei. espero poder reassisti-lo mais, ou, continue, inovou alguma coisa por aqui! adorei
25 Setembro, 2009| 12:26 am
rolou um fim da picada, mesmo!
28 Setembro, 2009| 5:00 am
Vai passar na mostra “Horror no Cinama Brasileiro”, aqui em BSB.
Fiquei curioso e estou doido pra ver. De horror, só conhecia Mojica. Agoratem até Khouri.São 27 filmes. Vai ser bom
5 Maio, 2010| 6:55 pm
alguma ideia de onde posso encontrar este filme? não achei nas locadoras e nem na net… se alguem souber por favor me avisem!