Phiro, de Gregório Graziosi, 12′, 2008

Existe o que podemos tentar nomear de uma nova corrente do documentário de curta-metragem, que investe no posicionamento do cotidiano como figura fantástica (no sentido de mística, catártica) e na relação muitas vezes esquecida entre o mero registro ocasional e a preocupação estética, narrativa – próxima, cada vez mais, do ficcional (se é que é ainda possível essa distinção).
Vimos isso no cenário de curta-metragem recentemente com curtas como A Curva e Jarro de Peixes, de Salomão Santana; com Ocidente, de Leonardo Sette; com os filmes de Cao Guimarães (mais especificamente com Da Janela do meu Quarto e Andarilho); e, talvez, com os próprios filmes de Gregório Graziosi (Saba e Saltos). Este, porém, tem um tratamento diferente em relação ao seus objetos, em relação a sua narrativa e, principalmente, sua afetividade.
Afetivo talvez seja o mais claro adjetivo para essa breve carreira de Gregório. Mesmo que suas observações sempre sejam distantes, com personagens que não se apresentam tão claramente como tal (em Saltos, principalmente, o distanciamento da personagem é abismal), há sempre um laço afetivo forte, claro, direto e emocional (como não poderia deixar de ser), imposto pela linguagem narrativa que Gregório adota para cada um de seus projetos.
Em Phiro, continuação de Saba, há uma necessidade de se dialogar entre linguagens. Phiro não pode abandonar, e não o faz, a linguagem adotada em Saba. Mas há uma diferença óbvia, tanto na vida de Porphirio quanto na linguagem do próprio filme. Phiro explora espaços vazios o tempo todo, ele é sobre espaços vazios, devido, em primeira e mais óbvia instância, à ausência de Chiquinha. Mais profundamente, essa sensação de vazio torna Phiro um filme muito mais dinâmico que Saba. Há uma sensação constante de movimento no filme, de caminho, de valorização de uma jornada, talvez. Porphirio fala da sua ausência, da sua saudade e inércia, mas há um reconhecimento nobre, por parte de Gregório, dessa jornada que aos poucos chega ao fim e que, gloriosamente, nos 80 anos em que durou, teve um valor que está em cada pedaço, em cada objeto, em cada canto. É essa transformação, inevitável mas bela – uma sensação permanente de que ainda há um encontro a acontecer – que dá a Phiro um fôlego quase ansioso que não o permite ser apenas um filme de saudade, mas esperançoso.
Veja a cobertura completa da 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes