Revista Moviola – Revista de cinema e artes » A Fuga da Mulher Gorila

A Fuga da Mulher Gorila


Por

Publicado em 28 de Janeiro de 2009

A Fuga da Mulher Gorila, 2009, de Felipe Bragança e Marina Meliande.

A Fuga da Mulher Gorila: Escapar para onde?

Em Messidor (1979), de Alain Tanner, duas desconhecidas se unem para errar pela Suíça, sem destino, ponto de chegada ou mesmo percurso definido. Elas adotam todos os comportamentos antissociais possíveis, a fim de se pôrem à margem das leis e da moral aceitas pelo Ocidente europeu cristão: param de trabalhar, roubam, não tomam mais banho, mendigam pelas ruas, insultam física e verbalmente os demais. O enfado civilizatório que surge com a geração hippie se coloca, da mesma forma que a ausência de perspectiva com o término do movimento. Depois de circularem por todo país (bem antes da União Européia), amigas chegam ao impasse: e agora, prosseguir para onde?

A mesma questão aparece em A Fuga da Mulher Gorila. As duas irmãs pegam a estrada de kombi, recolhem ator que deseja conhecer o Rio de Janeiro, organizam show mambembe no qual se transformam em gorila e ameaçam a platéia – o oceano, símbolo do infinito, motiva-as a se lançarem na busca, a desbravarem o caminho, mesmo que ele seja inalcançável. O filme de Felipe Bragança e Marina Meliande pulsa sobre o tênue limite entre a aventura e a melancolia, em virtude da impossibilidade de se concluir a jornada.

A Fuga da Mulher Gorila homenageia (porque absorve e retrabalha) os espetáculos circenses das cidades interiorianas e as velhas marchinhas de carnaval das chanchadas da Atlântida. Musical, o filme é rivettiano: como Paris no Verão, a irrupção brusca das canções rompe com a lógica narrativa pautada pelo naturalismo visual e catapulta ao ambiente os sentimentos retesados das personagens. Flora mantém o olhar inocente, enquanto sua irmã é apenas raiva e saudade: ela abandonou o marido e o filho recém-nascido, largou tudo, fugiu.

Prosseguir para onde? Para lugar algum, talvez. Road-movie, A Fuga da Mulher Gorila se aproxima de Bang-Bang, de Andrea Tonacci – repleto de entradas e saídas, verdadeiras e falsas, intercambiáveis. No emaranhado de alegrias, saudades, raivas, sensações, desesperos, é preciso construir algum sentido, qualquer que seja, para que a vida continue.

Veja a cobertura completa da 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

: : Compartilhe

    

    1 Commentário sobre 'A Fuga da Mulher Gorila'

    1.  

      28 Janeiro, 2009| 6:42 pm


       

      [...] Cinequanon Filmes Polvo Moviola [...]

    Deixe um comentário

    (obrigatório)

    (obrigatório)


    Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



    RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

     

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    26 de Outubro de 2011

    Políssia, França, 2011, de Maïwenn Maïwenn acompanha o dia-a-dia da unidade policial que combate os crimes sexuais contra crianças. A câmera, sempre instável e contingente, flagra momentos breves, que revelam menos as investigações em si e mais as agruras psíquicas e emotivas que solapam as personagens em contato com a pedofilia. A narrativa de Políssia [...]

    Por Rodrigo Cazes

    20 de Outubro de 2011

    Caminho para o nada, Monte Hellman, EUA, 2011 O cinema é uma manifestação artística com imensa capacidade para reproduzir a realidade, graças a sua reprodução ótica a 24 quadros por segundo. Mas, ao mesmo tempo, também possui uma enorme natureza de ilusão, devida à sua natureza de cópia e, nos dias de hoje, às ilusões [...]

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    19 de Outubro de 2011

    Drive, EUA, 2011, de Nicolas Winding Refn No clímax de Drive, Bernie e o herói se enfrentam na rua, à luz do dia, mas vemos apenas suas sombras. Para a Los Angeles “oficial”, de fato, eles não existem – são personagens marginais, que vivem nos subterrâneos da grande metrópole. O herói não tem nome. Quando [...]

    Por Luciane Quoos

    18 de Outubro de 2011

    Dublê do diabo, Bélgica/Holanda, 2011, Lee Tamahori Assistindo ao filme Dublê do diabo sem saber que era baseado no livro escrito por Latif Yahia, um oficial do exército iraquiano que foi obrigado a passar-se pelo inescrupuloso Uday Hussein, filho de Saddam Hussein, concluímos que é um bom filme de ação, com cenas eletrizantes, uma câmera [...]

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    18 de Outubro de 2011

    O Moinho e a Cruz, Suécia e Polônia, 2011, Lech Majewski   O Moinho e a Cruz desvela as forças econômicas, sociais, políticas e até ecológicas que se articularam para a confecção do quadro “O Caminho do Calvário”, de Pieter Bruegel: o relacionamento do pintor com o banqueiro e mecenas flamengo Nicolaes Jonghelinck, a presença [...]

    Anima Mundi Animação animações Brasil Cachaça Cinema Clube Cannes CCBB Cineclube Cinema cinema brasileiro Cinema francês Curta Curta-metragem Curtas Debate Documentário Entrevista FBCU Festival Festival de Cannes Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 festrio França Gay Iraque Juventude Literatura Memória Mix Brasil Morte Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Poemas Poesia Rio de Janeiro Romênia Teatro Versos É Tudo Verdade

    WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.