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A Casa de Sandro


Por Paulo Ricardo de Almeida

Publicado em 27 de Janeiro de 2009

A Casa de Sandro, 2009, de Gustavo Beck.

A Casa de Sandro: isolado de tudo.

O artista plástico Sandro Donatello Teixeira, que dorme no interior da casa, não acorda quando o carro, refletido na janela, passa pela rua. O plano sintetiza não somente a personagem, como também o documentário de Gustavo Beck: à parte do mundo, sem nada a dizer, imerso na própria insignificãncia, morto.

Após cinco anos do primeiro contato, Gustavo Beck retorna à casa de Sandro Donatello Teixeira, fortaleza rodeada por verde que o mantém isolado do exterior. Salvo a visita de poucos amigos, da leitura diária dos jornais e da própria equipe de filmagem, ele permanece de costas para o mundo, já que o cerca apenas a realidade a que se permite ter acesso – os cômodos, o estúdio, o jardim, a piscina.

Casa de Sandro se detém sobre os hábitos cotidianos da personagem, bem como observa com atenção o microcosmo que o envolve (os onipresentes ruídos na natureza, por exemplo). Para representar a opacidade de Sandro, que não se conseguiria de todo apreender, Gustavo Beck quase sempre enquadra com algum obstáculo entre a câmera e o documentado – no entanto, a visão bloqueada e os cortes bruscos nas falas do artista plástico atestam que ele nada tem a dizer, já que não se comunica mais com quem poderia (ou deveria). Não surpreende que o pintor cubra de branco seu próprio quadro: o que havia de sentido, o que falava sobre a vida?

Gustavo Beck não critica a postura omissa de Sandro Donatello Teixeira. Ao contrário, A Casa de Sandro participa da negação do mundo que a personagem suscita: quando entra em quadro para celebrar com o artista plástico, a equipe assume a autorreferência total do filme que realizam, que aniquila qualquer exterioridade.

Veja a cobertura completa da 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes

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2 Commentários sobre 'A Casa de Sandro'

  1.  
    antonio luis kramer

    29 Janeiro, 2009| 12:36 pm


     

    concordo inteiramente com o colunista Paulo Ricardo de Almeida; estou assistindo ao festival e este documentario de Gustavo Beck foi a melhor exibição que assisti até este momento.

  2.  

    12 Fevereiro, 2009| 10:41 am


     

    De certo o colunista Paulo R.de Almeida,consegue dicernir a questão.Toda vez que existe um registro nas plataformas audio-visuais da obra e da vida peculiar de um artísta plástico-visual,deveria haver uma iniciação atmosférica da relação de quem cria,para quem,e por que?.Por minha convivência de vários anos no Mercado de Arte,”conheço” o personagem,Sandro Donatello,entre “obas e olás”,quando não so cumprimentamos por leves balançares de cabeças,sem grandes expressividades.É a relação que Sandro Donadello Teixeira,tem com seu mundo.Gustavo Beck,em sua obra “A Casa de Sandro”,percebe e registra bem isto,da mesma forma,que troca os valores predominatementes usuais,entre figura e fundo,o personagem artista retratado e suas criações e processos,passam a ser fundo,e a figura passa ser o audio.Não menospresando o documentado,mas registrando o mais verdadeiramente impossível,o alicerce imáginario da arte de do artista,a complexidade do todo pela postura do nada.Nesta obra icone,Beck redireciona o papel,e a função e a importância do audio,na produção,incomoda o público que foi lá para ver,só percebe exatamente a obra de Beck quem silênciosamente vê o documentário.Quem tece cometários,durante à exibição,perde o melhor da “festa”,pois neste caso específico,o audio conduz às imagens do que foi documentado.

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