A grande desvantagem de ser o único representante de uma revista eletrônica como a Moviola é esta: não poder acompanhar todos os eventos, especialmente os mais importantes. Ou seja, fico devendo, para um próximo Mix Brasil, uma cobertura do evento mais disputado a tapas, pontapés e sandaliadas para entrar, o Show do Gongo.
Nada podendo fazer a respeito disso, fui ao Instituto Cervantes ver algo mais sisudo: um debate com o produtor Pau G. Guillén, co-diretor, ao lado de Castón, do Festival Zinegoak e integrante do júri oficial do 16º Mix Brasil, e o cineasta Nacho G. Vellila, do filme Fuera de Carta, que estava o Panorama Internacional do Mix Brasil.
O assunto do debate estava na pergunta feita no título: “Cinema Queer Espanhol: nicho de mercado ou uma expressão sócio-cultural?”
(Pai dos burros in english: usamos o termo gay para designar o povo LGBT não apenas pela notória influência da língua inglesa, mas por ser um termo bem afirmativo, menos erudito do que homossexual e menos ofensivo do que “bicha”, “viado” – assim mesmo, com i; cortesia da turma do falecido Pasquim – etc., etc. e tal. Isso não quer dizer que os gringos não tenham seus próprios termos homófobos para os gays. É mais ou menos o caso de queer, que, numa tradução mais ou menos tosca, quer dizer exatamente “bicha”, “viado” etc., etc. e tal.)
Mas voltando à vaca fria. Cinema queer espanhol: nicho de mercado ou uma expressão sócio-cultural?
Bom, primeiro precisamos definir de qual cinema espanhol estamos falando – se é o cinema espanhol falado em castelhano e exportado para o mundo, ou se inclui os cinema falados nas outras línguas do reino de Juan Carlos I. Por exemplo, o cinema falado no enigmático idioma do País Basco.
Aliás, este ano, uma das programações especiais do Mix Brasil foi de uma seleção de filmes do Zinegoak, o festival de cinema e vídeo LGBT de Bilbao, uma das mais importantes cidades do País Basco. E, por increça que parível, há uns filmes bem interessantes neste programa.
Por exemplo, o divertido desencontro de A domicílio, de Mariel Macia (2007). Poderia ser mais curto que os seus 26′, que resolveria melhor, mas diverte assim mesmo.
Ou o inteligente tabuleiro de xadrez narrativo de Encruzijados, de Roberto Menéndez (2006, 8′).
Ou a passagem para a idade adulta de En el Instituto, de Xavi Sala (2007, 3′). Bacana mesmo.
Mas voltando ao debate. Uma das histórias que Nacho e Guillen contam – e que pode elucidar algumas coisas sobre esse assunto – é a de um produtor claramente homofóbico que, de uma hora para outra, com o sucesso de alguns filmes de temática e personagens LGBT, resolveu investir para valer neste filão.
Ou seja, mesmo não sendo muito fácil ainda, a pergunta-tema deste debate está se tornando um círculo virtuoso de corte bem capitalista: o cinema LGBT começa como uma expressão sócio-cultural, que chama a atenção de investidores pela repercussão e pelo público-alvo e se torna um nicho de mercado, que se desenvolve e reforça mais ainda uma expressão sócio-cultural, que reforça mais ainda este nicho de mercado, e por aí vai.
Delirium tremens deste escriba? Não, é a opinião dele. E não é uma opinião muito delirante, se compararmos com a situação brasileira, onde as sociochanchadas atacam no cinema, os produtos da Endemol dividem espaço com a produção estrangeira na TV paga, e os pastores evangélicos dividem espaço com os dois acima citados na TV aberta…

Veja a cobertura completa do 16º Festival Mix Brasil