Se havia alguma dúvida a respeito da presença de personagens LGBT no cinema brasileiro e de sua representação, esta dúvida foi sanada em 2002, quando Antônio Moreno publicou sua tese de mestrado em livro, A personagem homossexual no cinema brasileiro (Funarte / EDUFF, 2002). E sua conclusão é taxativa: não estamos muito bem na foto não.
(…) o retrato existencial, social e cultural do homossexual é, no mínimo, deformante. No aspecto dos filmes analisados, raros demonstram um tratamento humanístico ou ético do homossexual (…)
Pelo retrato social oferecido nesses filmes, o homossexual seria, em síntese: um sujeito alienado politicamente; existente em todas as classes sociais, com preponderância na classe média baixa, onde, geralmente, tem um subemprego; de comportamento agressivo e que usa, freqüententemente, um gestual feminino exacerbado, o que se estende ao gosto pelo vestuário; e que nos relacionamentos interpessoais, mostra tendência à solidão e é incapaz de uma relação monogâmica, pois utiliza-se de vários parceiros, geralmente pagos, para ter companhia.
É um modelo cruel, marcado pelo preconceito e a incompreensão, o deboche e a caricatura. Mas é a visão que, de forma especular, se depreende e que, infelizmente, prevalece neste assunto. Está expressa e pode ser comparada com o cotidiano de nossa sociedade. Onde indagaríamos: estas marcas têm vínculo com a realidade do homossexual brasileiro? É assim que ele deve ser representado?
(MORENO, Antônio, op. cit.)
Boa pergunta.
Bom, Cinema em 7 cores, de Rafaela Dias e Felipe Tostes, não é a versão filmada de A personagem homossexual no cinema brasileiro – até porque, para isso, teria de ser um longa-metragem, porque tem material e fôlego para tal. Mas podemos considerá-lo um ensaio. E um excelente ensaio.
A estrutura é funcional, como pede um bom documentário informativo: entrevistas com críticos (como Andréa Ormond, do blog Estranho Encontro), cineastas (como Sandra Werneck, realizadora de Amores possíveis, e Karim Aïnouz, de Madame Satã) e outras personalidades (como o ex-BBB Jean Willys) e imagens de arquivo, de filmes brasileiros das últimas décadas – filmes onde, em sua maioria, aparecem estereótipos negativos em torno do personagem LGBT (a bicha-louca, a bicha – ou a sapata – perversa, a bicha – ou a sapata – ligada ao crime etc.) ou de como o lesbianismo era uma… digamos… pausa que refresca para o levantamento da… digamos de novo… moral do público masculino das pornochanchadas, salvo honrosas exceções. (Maiores detalhes sobre isso – e se me perdoarem a auto-propaganda – ver artigo deste escriba, Meninas de mãos dadas - O lesbianismo no Cinema, para a co-irmã Cinequanon). Na verdade, a pesquisa de imagens tornam este documentário um dos mais preciosos em termos de historiografia do cinema brasileiro – especialmente porque não mostram os estereótipos, mas suas honrosas exceções.
E faz-nos pensar não apenas sobre as razões disto mas da própria relação do povo LGBT com a tela grande aqui no Brasil, bem com o cansaço destas representações – sejam as estereotipadas e preconceituosas, seja as atuais, politicamente corretas demais e, no fundo, tão excludentes como o estereótipo.
Pena que seja curto. Vamos torcer pelo longa.
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