Filthy, do Coletivo Queer Fiction, 2008, Brasil, 17′ e ORGIA, de Igor Penna, 2008, Brasil, 5′
Este texto é dedicado aos que, porventura, querem saber sobre filmes que levantem… digamos assim… a moral. Daí, vamos fazer um jogo com dois filmes da Mostra Competitiva: Filthy e Orgia.
Vejamos a sinopse de Filthy: Duas garotas descobrem juntas os “prazeres da carne”.
UAU!!!!
Agora, a de Orgia: Uma ode ao desejo e à diversidade. Baseada na obra teatral homônima de Pier Paolo Pasolini, essa tragicomédia mostra um empresário numa noite decisiva. Ele retorna ao escritório e começa a questionar sua relação com o poder e a diversidade. Depois de beber e filmar um discurso seu, o empresário busca a catarse numa atitude radical em favor da existência, da desobediência e de um mundo comprometido com a luta pela diversidade.
Muito intelectual, não?
Logo, o filme que mais levanta a… digamos… moral é Filthy, certo?
Errado.
As meninas de Filthy transam para valer, e é uma transa que não deveria nada a nenhum filme pornô, se você não brochasse. Motivo: o erotismo, se é que sobra algum, é enterrado pela ânsia de “chocar” a qualquer custo, de “escrachar” de qualquer jeito, sem uma motivação mais forte do que isto e sem talento. Sim, porque até para lidar com os ícones da pornografia e do horror (e tome sangue e tripas à toa) é preciso criatividade e talento. Sem isso, e diante de uma ambientação (cenário e iluminação) claustrofóbica e uma duração interminável (17 minutos que pareciam multiplicados por três - cortesia de uma edição incompetente), Filthy se torna ainda mais insuportável. E ainda mais brochante.
E Orgia? Bem, Orgia é um monólogo de um empresário, que termina com uma atitude radical em sua vida. Eu disse vida? Disse sim - e assista o filme para entender. Basta saber que é um monólogo vigoroso - como disse, baseado em textos de Pier Paolo Pasolini, o mais vigoroso crítico de todos os sistemas limitantes da vida humana. E é justamente a atuação solitária de Fernando Neves o ponto fortíssimo deste filme, que te dá muito tesão - não apenas aquele tesão para aquilo que você está pensando, mas para chutar todos os baldes e paus da barraca que encontrar. Orgia, sim, levanta a sua moral - em todos os sentidos.
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Leia ainda outra crítica sobre Filthy
2 December, 2008| 7:20 pm
Se os filmes estão sujeitos à crítica, por que não sujeitar também o texto do crítico ao julgamento? Estaria ele isento da apreciação crítica, ao contrário dos filmes? Vamos comentar os apontamentos escritos por Antonio Paiva Filho sobre o filme FILTHY.
Não apenas é necessário competência para lidar com os “ícones” do cinema, mas também para realizar uma crítica, e competência é o que carece o texto de Antonio Paiva Filho na sua análise comparativa sobre “filmes que levantam a moral” (nem mesmo ele sabe o significado e a precisão, como indica o “…digamos assim….” que precede o termo “moral”). Um crítico que se propõe analisar um filme de forma séria deveria primeiramente suspender suas pré-noções e preconceitos, o que não é um atributo presente no texto de Paiva Filho. O que transborda na forma de competência e seriedade na análise de Fernando Secco (http://www.revistamoviola.com/2008/09/26/filthy), manifesta-se na forma de pré-conceito, incompetência e imprecisão no texto de Antonio Paiva Filho.
FILTHY, a partir da sua linguagem experimental, não usa a transgressão e o choque como um fim, mas como um meio de questionar concepções e visões comuns acerca da sexualidade, gênero, desejo e pornografia. Parecia-nos óbvio isso, mas a partir do texto de Paiva Filho é surpreendente o risco de interpretações rasas. Acostumados com narrativas convencionais dentro do cinema, alguns são incapazes de traduzir imagens que desafiam o padrão.
Num plano mais amplo, FILTHY questiona a visão simplista e reducionista acerca da sexualidade, marcada por dicotomias simples masculino/feminino, pureza/sujeira, inocência/violação, etc., onde tudo que foge ao padrão “asséptico” & heterossexual é considerado desvio ou patológico. A inocência e a pureza representada na cena inicial de FILTHY passa a se misturar com o bizarro e a própria violência, mostrando que não existem papéis monolíticos ou homogêneos dentro da sexualidade. No mesmo corpo a sexualidade pode se manifestar de várias formas, aparentemente antagônicas, mas sempre marcadas por uma heterogeneidade de signos e símbolos. Partimos do princípio de que a sexualidade é uma construção cultural complexa que está além das formas simples geralmente usadas para representá-la. Nesse sentido, FILTHY redefine a questão sobre o que é diversidade sexual e como ela se manifesta nos corpos, procurando romper com o senso-comum.
FILTHY também desconstrói a forma como convencionalmente o personagem feminino é representado através do cinema e do vídeo (na própria pornografia, inclusive) - reduzida às expectativas e desejo do olhar masculino, destituída da capacidade de protagonismo, a mulher é mostrada como um objeto. Vamos ser francos, o erótico em nossa sociedade é predominantemente definido em função do desejo masculino & hetero-normativo.
No texto, Paiva Filho apresenta uma concepção estreita e limitada do significado de “erotismo”. Ele julga a distinção erótico/não-erótico a partir da capacidade de causar “excitação”, o que é um tanto grosseiro. Conforme as palavras de Paiva Filho: “As meninas de Filthy transam para valer, e é uma transa que não deveria nada a nenhum filme pornô, se você não brochasse” ou “Filthy se torna ainda mais insuportável. E ainda mais brochante”. Nessa concepção de erotismo defendida por Paiva Filho, a mulher é representada como um objeto que deve obrigatoriamente excitar o espectador, ou não deixá-lo “brochar”. Há muitas lojas & locadoras de vídeos pornográficos em SP, com locação e comércio de pornografia convencional. Aconselhamos que Paiva Filho procure uma, assim ele poderá buscar excitação no conforto de seu lar.
No cinema em geral, e mesmo na pornografia, sempre se espera que a personagem feminina seja passiva, doce, delicada, subordinada à concepção de “erótico” do homem, enfim, uma criatura inofensiva, excitante e limitada pelos anseios masculinos. FILTHY busca subverter essa representação acerca do feminino, mostrando personagens que são a antinomia da representação feminina comum.
FILTHY é “anti-erótico”? Não. Ele sabota uma concepção dominante de erotismo que atua de forma excludente, subordinada ao desejo masculino, e que marginaliza a sexualidade da mulher e das minorias. FILTHY faz isso utilizando a paródia e uma pornografia que se aproxima do burlesco. Conforme a feminista queer Judith Butler (2003), a paródia revela um papel subversivo importante, devido ao seu poder de desestabilizar as identidades e normas de sexualidade e gênero, denunciando o caráter artificial de tais identidades e normas. As práticas parodísticas denunciam a ilusão de se tomar os papéis sexuais e de gênero como naturais (principalmente os alinhados com a heterossexualidade), mostrando que tais papéis são construções sociais e de poder.
FILTHY produz no espectador uma sensação claustrofóbica e de que o tempo do filme é longo? A falta de sensibilidade do crítico Paiva Filho impede-o de compreender o propósito do tempo no filme, construído para intensificar o mal-estar & desconforto psicológico no espectador. Logo, ele deduz que se trata de um problema de “montagem”, já que a crítica leviana é mais fácil que a busca pela compreensão.
Nós do QUEER FICTION compartilhamos da posição de que a arte, antes de tudo, deve perturbar. FILTHY perturba e isso é inegável. Cabe ao crítico entender a razão disso no lugar de vomitar preconceitos e pré-noções. Por que o sexo, quando mostrado de maneira tão crua, é perturbador? O que é diversidade sexual e erotismo? O que a “pornografia” pode contribuir na reflexão sobre as relações de gênero e diversidade sexual?
Apesar da incompetência, imprecisão e tom irresponsável do texto do crítico Antonio Paiva Filho sobre o filme FILTHY, num aspecto ele está completamente correto. FILTHY não foi produzido para “…digamos assim… levantar a moral”, mas para destruí-la.
Citação:
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.