Para que Não me Ames, de Andradina Azevedo e Dida Andrade, 2008, Brasil, 17′
Para quem não sabe ainda o que são “sociochanchadas”, (definição criada por Andréa Ormond em artigo no seu blog Estranho encontro, sobre a obra-prima Perdida, de Carlos Alberto Prates Correia, vão aí alguns trechos (não resisti):
As sociochanchadas são muito parecidas entre si, em sua quase totalidade produzidas no Rio de Janeiro, com padronização televisiva e de roteiro esquemático sobre a luta de classes nas favelas cariocas ou algum rocambole nos grotões nordestinos. Percebam que o fenômeno pouco difere de outro mais antigo, aquele das pornochanchadas. Apenas trocou-se o sexo pela mensagem social, pelo engagée politicamente correto.
Uma segunda diferença fundamental é que as pornochanchadas foram feitas com as promissórias de Antonio Polo Galante e Alfredo Palácios. Caso dessem errado, o produtor falia e tinha que passar uns tempos escondido em Mongaguá. Já as sociochanchadas chegam pagas ao público, não oferecendo o mínimo risco aos realizadores, mesmo que apenas três espectadores as testemunhem.
Nem precisamos citar o título de alguma sociochanchada. Como todo fenômeno bárbaro, elas estão por aí, tomando cada vez mais espaço. Basta consultar a lista dos filmes em cartaz ou ler a sinopse dos projetos que buscam patrocínio.
Podemos dizer, sim, que vozes distoantes são O Cheiro do Ralo, Amarelo Manga, Jogo Subterrâneo, Crime Delicado, o novo do Mojica; filmes que provam a existência de uma outra maneira de se fazer cinema, longe da indústria oportunista que se criou em volta deste hábito sociochanchadeiro.
Infelizmente, o estrago se faz visível: o cinema nacional hoje vive o paradoxo de mobilizar milhões de reais para produzir resultados artísticos e comerciais pífios. Um discurso de tolerância crescente realimenta o ciclo, fazendo-se de conta que dezenas de tentativas muito parecidas entre si nada guardam em comum.
Está certo, o cinema brasileiro tem que encarar o real, encarar a violência urbana e suas conseqüências. Mas estas “sociochanchadas” e sua mania de chuchar à bordalesa pela realidade já estão enchendo o saco…
Andréa propõe que o remédio para tais gorduras seja o jeito Prates de fazer cinema, e eu concordo em gênero, número e grau. Mas outros realizadores preferem buscar inspiração no olhar rascante de Plínio Marcos sobre esta situação - e eu acho que também é uma saída boa e mais honesta que estas sociochanchadas. Basta ver Para que não me ames, de Andradina Azevedo e Dida Andrade (FAAP).
Ainda que se negue — ou que não se tenha consciência disso —, nota-se uma certa inspiração em Plínio Marcos, especialmente em Barrela e A mancha roxa, na relação amorosa entre dois presos, Marisco (Bruno Giordano) e o travesti Vivita (na verdade, uma atriz, Alice Magna). O preto-e-branco forte (recurso que parece recorrente entre os filmes mais interessantes do festival) dá mais força a este filme intenso e lírico em sua brutalidade.
E pode dizer, com orgulho: “sociochanchada” é o cacete!
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1 December, 2008| 10:26 am
para que não me ames é sem duvida o melhor curta de 2008, gostaria de conhecer mais sobre os diretores…