Standard Operating Procedure, de Errol Morris, 2007, EUA.

Segundo o ditado popular, “o peixe morre pela boca”. O cinema de Errol Morris deixa que os personagens falem, a fim de pegá-los em contradição. Em outras palavras, o documentarista constrói seu discurso narrativo a partir das vozes que colhe ao longo das filmagens, sem que tenha se posicionado a respeito de antemão.
O dispositivo de Errol Morris evita o “filme de tese”, em que o cineasta (Michael Moore, por exemplo) deseja apenas confirmar a proposta inicial, e se abre à ao contraditório e ao inusitado. Porém, se o método funciona em Sob a Névoa da Guerra, naufraga em Procedimento Operacional Padrão: falta a Morris, justamente, a coragem de se colocar frente a frente com assunto tão espinhoso quanto as torturas que aconteceram na prisão iraquiana de Abu Ghraib.
Se, em Sob a Névoa da Guerra, o discurso do ex-secretário de Defesa norte-americano Robert MacNamara era fonte inesgotável de polêmica, em Procedimento Operacional Padrão Errol Morris necessita construí-la através dos depoimentos dos militares que se envolveram nos abusos contra presos iraquianos em Abu Ghraib. No entanto, são apenas figuras estúpidas, desinteressantes, insossas e mesquinhas que, como mostram as fotografias que os próprios tiraram para se divertir, perpetraram crimes hediondos e inclassificáveis.
Errol Morris, contudo, mais do que os ouvir, tenta humanizá-los, na medida em que responsabiliza os superiores hierárquicos. Apenas soldados, cabos e sargentos - que lidam diariamente com as pressões da guerra - foram punidos, enquanto generais, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld ou mesmo o presidente George W. Bush permaneceram intocáveis. Apesar de reconstituir espetacularmente os horrores de Abu Ghraib, apostando na estética do choque e da revolta, o diretor se contenta em acusar de forma vaga e genérica o “sistema” - mas não se manifesta contra o procedimento operacional padrão, nem o enquadra como tortura.
Define-se procedimento operacional padrão como “técnicas de interrogatório” (ou seja, integram práticas e códigos estabelecidos dentro das forças armadas norte-americanas) que privam o suspeito de qualquer conforto físico ou psicológico, para que se obtenham as informações desejadas - em Abu Ghraib, submeter os prisioneiros a longos períodos de pé, arrastá-los pelo chão, não os deixar dormir. Errol Morris, infelizmente, não deixa claro se trata de eufemismo para tortura.
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