Un Conte de Noël, de Arnaud Desplechin, 2008, França.

Como escrever sobre filme que, de fato, não passou? A terrível cópia em que se exibiu Um Conto de Natal representa o ponto mais baixo do Festival do Rio 2008. No entanto, a qualidade e a importância do último longa-metragem de Arnaud Desplechin tornam a revisão crítica fundamental.
O pai que reúne a família para o natal se chama Abel - nome bíblico, primeiro filho de Adão e Eva. O que aconteceria se Abel não fosse morto pelo irmão? Como lhe seriam os descendentes, no lugar dos herdeiros de Caim?
Junon necessita de transplante urgente de medula para sobreviver. Contudo, somente o filho Henri pode doá-la. Ambos se detestam, a ponto de ele não falar “mãe”, e sim “a mulher de meu pai”. O personagem de Mathieu Amalric é a ovelha negra da família, uma vez que a irmã mais velha o baniu e lhe proíbe que conviva com os demais parentes.
Em Um Conto de Natal, Arnaud Desplechin readiografa a supremacia do matriarcado. Junon, Elizabeth e Sylvia são mulheres fortes, que exercem o poder sobre os familiares e os controlam, ao passo que Ivan, Simon e Paul encarnam homens fracos e dependentes. Mesmo Henri, que se revolta contra a mãe e a irmã e contesta a ordem feminina estabelecida (de modo que termina expulso), tem as lembranças da ex-esposa, que faleceu logo após o casamento, para atormentá-lo. Somente Faunia, namorada de Henri, escapa do círculo destrutivo que invade a casa: ela não quer detalhes sobre a família e, de origem judaica, não se interessa pelo natal.
Faunia não paticipa da festa cristã que celebra o nascimento de Jesus, pois Desplechin já a retirara da narrativa. Um Conto de Natal, desde o título, lida com a religião - Henri se declara o único católico da família, Simon diz aos sobrinhos que Cristo não existe. Porém, se não há Messias, não há salvação ou vida eterna, restam apenas momentos fugazes de corpos ainda mais efêmeros: tudo não passa de mito, histórias que se criam para, através da morte, garantir a organização social. Quando as lendas perdem a capacidade de difundir o medo e a descrença se estabelece, mesmo a família se torna suscetível ao caos.
Arnaud Desplechin, em Um Conto de Natal, conecta religião e poder. É preciso acreditar no ritual natalino e reencená-lo, da mesmo forma que se deve confiar no transplante que salvará Junon, contra todas as probabilidades matemáticas - ainda que, nos dois casos, saiba-se de antemão da farsa. Trata-se da “lógica do Papai Noel”, em que se crê, embora ele não exista, pois importa que os filhos se submetam aos pais, que a família se mantenha coesa e sem contestações internas. Todavia, se no filme as mulheres dominam os homens, estes ao mesmo tempose deixam controlar: leitura fassbinderiana dos jogos de poder que ocorrem nas dinâmicas afetivas, nas quais se invertem as relações entre vítimas e carrascos. O matriarcado se impõe porque o sexo masculino assim o consente, já que se utiliza da própria fraqueza para se fazer dependente e centro das atenções (Paul, que tenta o suicídio e obriga que Elizabeth lhe cuide integralmente).
Apesar da péssima cópia, que exterminou a definição, as cores e o scope da fotografia, Um Conto de Natal não apenas guarda, como também exacerba as características de Arnaud Desplechin. O filme trabalha com mais personagens, temas e enredos do que parede dar conta - mas que acompanham o ritmo intenso e feérico da soberba performance de Mathieu Amalric. E a seqüência da carta de Reis e Rainha está de volta: com a mesma sinceridade cortante, os familiares de Um Conto de Natal confessam diretamente para a câmera segredos indevassáveis e incômodos, repletos de amargura, raiva e frustração. Eles não pedem, no entanto, que sejam aceitos ou compreendidos - só desejam que os escutemos, com a franqueza com que nos dirigem a palavra.
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