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Rebobine, Por Favor



Aristeu Araújo

Rebobine, por favor, de Michel Gondry

Michel Gondry é um diretor virtuoso. E, por virtuoso, entenda-se um artista que extrapola na hora de apresentar seus dotes técnico-artísticos. Ou seja, assistir a um filme seu é como ir a um show daquela banda que você tanto admira e observar de perto os solos mirabolantes do guitarrista. O problema é que para os que não a admiram tanto, fica uma certa sensação de enfado ao ver aquele tal solo esticado por mais de cinco minutos.

E dentro dessa lógica, Rebobine, Por Favor talvez seja o filme mais virtuoso de Gondry. É que o seu já conhecido estilo de criar soluções lúdicas, baratas e interessantes para a cenografia são colocadas no filme em primeiro plano, em evidência. São, na verdade, parte da própria história que está sendo contada. Gondry ganhou notoriedade dirigindo videoclipes de artistas como Björk, Smashing Pumpinks, Daft Punk, entre outros. E entre os seus longas-metragens, figura o aplaudidíssimo Brilho eterno de uma mente sem lembranças, com roteiro de Charlie Kaufman (Quero Ser John Malkovich).

Rebobine, por favor, de Michel GondryRebobine, Por Favor é uma comédia acerca de uma pequena e decadente locadora de fitas VHS. O negócio anda mal porque chegou no mercado o DVD, e o proprietário (Danny Glover) não se modernizou a tempo. Para correr atrás do prejuízo, ele viaja para estudar o ramo de vídeos digitais. Quem fica cuidando da loja é apenas o atendente (Mos Def). O problema é que seu amigo Jack (Jack Black) acaba por desmagnetizar todas as fitas da locadora. Em apuros, os dois resolvem regravar alguns filmes do acervo, na esperança que os clientes não percebam.

As versões suecadas dos filmes, como eles chamam, acabam caindo no gosto da vizinhança, que faz fila e encomenda novas versões para eles. Assim, Gondry acaba colocando ironicamente em pauta um questão que tem dado muita dor de cabeça a Hollywood, a pirataria.

A dupla refilma diversos clássicos dos anos 80, como Caça-Fantasmas, Robocop e Conduzindo Miss Daisy. E é nessas refilmagens onde surge o gênio criador de Gondry, que lança mão de sua palheta cenográfica para criar soluções simples e lúdicas para problemas de produção. Assim, vemos carros de papel que no filme parecem carros de verdade, enfeites de árvores de natal no lugar dos raios dos caça-fantasmas, câmeras de vídeo em “visão noturna” para simular noite.

Com Rebobine, Por Favor, Gondry faz uma homenagem nostálgica não só aos filmes dos ano 80, mas à toda história do cinema. Porque em suas refilmagens, ele escancara a lógica criadora que é desde sempre perpetuada entre os que fazem cinema.

Até aí, tudo bem. Os problemas surgem quando nos debruçamos sobre o enredo em si. Para tão elaboradas e virtuosas soluções fílmicas, era de se esperar no mínimo que o roteiro mantivesse o mesmo nível. Entretanto, talvez no afã de prestar essa homenagem, confeccionou-se um roteiro com as mesma estrutura desses filmes em questão. Tudo muito previsível e desprovido da poesia que o filme quer suscitar.

No Rebobine, Por Favor sobrou Gondry, mas faltou Charlie Kaufman.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2008


Publicado em 9 de October de 2008


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