Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Juventude

Juventude


Por

Publicado em 5 de Outubro de 2008

Juventude, de Domingos Oliveira, 2008, Brasil.

 

Em entrevista concedida ao Rolo 3 da Revista Moviola, o diretor, ator e dramaturgo Domingos Oliveira confessou que tinha o intuito de se renovar enquanto cineasta. O que ele não disse é que essa renovação surgiria já em seu novo longa-metragem, Juventude, estrelado por ele próprio, Paulo José e Aderbal Freire Filho (que pela primeira vez atua no cinema, embora tenha uma história sólida no teatro). 

Com um cinema prolífico e voltado a questões que envolvem sobretudo relacionamentos amorosos, Domingos é um exemplo singular do que é fazer cinema no Brasil. Com uma carreira extremamente ativa, ele conseguiu realizar um grande número de filmes em um curto espaço de tempo. Nos últimos seis anos foram cinco filmes dirigidos, sendo que os dois últimos foram terminados mais ou menos ao mesmo tempo (Juventude e Todo mundo tem problemas sexuais). 

Além disso, Domingos é um dos poucos cineastas brasileiros a trabalhar com um universo narrativo próprio. Seu cinema acaba se tornando uma espécie de crônica da boemia da zona Sul carioca, com seus uísques, artistas depressivos, bêbados do baixo Gávea e – invariavelmente – amores, amores, amores…

Nesse Juventude estão lá todos os mesmos elementos. A crônica, no entanto, parece olhar para um outro lado que os seus filmes ainda não tinham abordado de forma tão clara e honesta: a presença da morte. Domingos estréia o filme com 72 anos de idade.

O filme se dá durante um encontro entre os três personagens principais, David, Antônio e Ulisses. Amigos desde a infância, vão aproveitar o dia para rememorar suas experiências em comum e debater o sentimento que têm por aquele momento de suas vidas. 

O encontro se dá na mansão que um deles reside, o personagem de Paulo José. Domingos, como sempre, vive o artista escritor. E Aderbal Freire Filho é o amigo médico que não tem um puto para segurar a vida sem o trabalho diário.

É curioso que num filme que trate justamente da finitude, Domingos tenha voltado a trabalhar com Paulo José, ator presente em uma infindável lista de longas e no seu de estréia, o clássico (e até hoje apontado por muitos como a sua melhor obra) Todas as mulheres do mundo, de 1967.

Além da morte, que é uma constante em Juventude, há um trato alegórico (ou simbólico) que o distancia de sua obra, ou, ao menos, dá um novo tom a ela. Os três amigos se conheceram na época em que encenavam na escola a peça A Ceia dos Cardeais, de Julio Dantas. Nostálgico, o filme irá trazer o texto e a encenação novamente à tona, cinqüenta anos após os três personagens, ainda jovens, o terem interpretado.

Assim, Domingos propõe um teatro dentro do filme. Diferente, no entanto, das experiências que ele já havia realizado em Separações, Amores ou em Carreiras. Porque desta vez os personagens dramatizam um texto que está presente na obra como um “objeto teatral”, mas, ao mesmo tempo, é filmado como o mais puro cinema. Em outras palavras, Domingos tem a grande sacada de experimentar mais uma vez o teatro no cinema, mas com o melhor tom cinematográfico possível.

O resultado é, ao que parece nos olhos do expectador, um dos filmes mais sinceros da carreira do cineasta. Uma obra que dialoga com obras-primas como o canadense Invasões Bárbaras, de Dennis Arcand. Dialoga não só na fronteira da morte, mas no modo de observar as transformações sociais, as crenças que cada um carrega em si por toda a vida.

Ao final, depois de uma noite em claro de brigas, risadas e porres, os três amigos vêm o nascer do sol. Nessa hora o personagem de Domingos resume bem o que é o viver e o morrer. Vendo o novo dia, ele exclama maravilhado, “meu Deus, o que é que é isso?”.  

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2008



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

6 de Maio de 2013

  O documentário Brasil Orgânico (2013), dirigido por Kátia Klock e Lícia Brancher, integra a programação da segunda edição do Green Rio, seminário organizado pelo Planeta Orgânico, nos dias 8 e 9 de maio, no Jardim Botânico. A sessão, com lançamento do DVD do documentário, acontece na quarta-feira, 8 de maio,  às 11h30, no Espaço [...]

Por Maysa Monção

25 de Abril de 2013

(Londres, Moviola) – Ao abrir a 2ª. edição do Sundance London, nesta quarta (24/4), o diretor Robert Redford, em entrevista coletiva, afirmou que eles vieram no ano anterior, a convite, de um modo modesto. Estão voltando, então, porque o primeiro ano fora de Utah foi uma boa experiência. Na verdade, a edição londrina do Sundance [...]

Por Revista Moviola

5 de Abril de 2013

  No próximo domingo, às 9h, será exibido no cinema Odeon Petrobras, na Cinelândia, o filme O dia que durou 21 anos, de Camilo Tavares. Após a sessão haverá debate com: Carlos Fico (professor de História da UFRJ), Denise Assis (Comissão da Verdade) e Ivan Proença (capitão cassado em 1964). E tem ainda a Sessão [...]

Por Maysa Monção

1 de Abril de 2013

  (Londres, Moviola) – No dia de S. Patrício, padroeiro da Irlanda, realizou-se em diversas salas do Reino Unido uma première conjunta do último filme de Ken Loach, O Espírito de 45. O evento contou com a presença do diretor, último baluarte vivo de um cinema engajado à gauche, uma espécie de Eric Hobsbawn da [...]

Por Anna Beatriz Lisbôa

15 de Março de 2013

Anna Karenina, de Joe Wright (Anna Karenina, 2012). Apesar de a história de Anna Karenina ter sido adaptada várias vezes para o cinema e para a televisão em pomposos dramas de época, há elementos na prosa de Tolstói que não pertencem a esse gênero, tão obcecado em produzir um registro fidedigno que às vezes se [...]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cannes CCBB Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês cinema inglês Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista FBCU Festival Festival de Cannes Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 festrio Fest Rio França Gay Karim Aïnouz Literatura Mix Brasil Morte Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Poemas Poesia Première Brasil Rio de Janeiro Teatro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.