A Erva do Rato, de Júlio Bressane, 2008, Brasil.
Em 2003, Júlio Bressane lançou Filme de Amor. Cinco anos depois, chega a vez de “Filme de Sexo (e de Morte)”, embora o título oficial do longa-metragem seja A Erva do Rato.
Livremente inspirado em dois contos de Machado de Assis, A Causa Secreta e Um Esqueleto, A Erva do Rato começa com o encontro do homem e da mulher no cemitério - primeiro indício da morte, constante na narrativa. Ele a traz para casa, onde desenvolvem não apenas estranho relacionamento afetivo (em que não há sexo, conquanto atuem como marido e mulher), como também profissional, já que, de início, ela copia extensos ditados sobre vários temas - que unem História, mitologia, botânica, geografia, Rio de Janeiro -, para depois se submeter a fotos pornográficas, que se concentram principalmente na vagina, nos seios e nas nádegas.
O homem exerce seu desejo sobre a mulher em dois níveis. Primeiro, através da escrita, do que ele dita e ela copia. Segundo, pelo olhar, em que a objetiva da câmera transforma o corpo feminino em modelo a ser regulado, manipulado e controlado. O desejo masculino se confunde com a posse e com o poder, de sorte que a manifestação do erotismo e dos instintos pulsionais lhe ameaça - a erva do rato aponta justamente para o veneno que corrompe a ordem patriarcal estabelecida.
O homem combate, de maneira obcecada, o despertar da sexualidade feminina, do prazer sensual com que o rato satisfaz a mulher. De início, o roedor devora as fotos e, depois, passeia eroticamente sob os lençóis de Alessandra Negrini - Júlio Bressane aumenta o grau do desafio ao poder masculino. Para o personagem de Selton Mello, não interessa que a mulher se torne livre e consciente do próprio sexo, mas que permaneça submissa, mero objeto que o homem esquadrinha e cataloga com o olhar. A posse se estende além da morte, ao contrário do desejo: ele continua a fotografá-la, mesmo quando lhe resta apenas o esqueleto - senhor absoluto da companheira (da pele e dos ossos, do exterior e do interior).
O método científico com que o homem fotografa, analisa e sistematiza a presença da mulher (a repetição das poses, por exemplo) nasce durante o século XIX, período em Machado de Assis escreveu os contos em que A Erva do Rato se baseia. Regulação do corpo em diversos meios que o confinaram, surgimento de discursos múltiplos para domar a sexualidade individual e das ciências humanas para controlar os grupos sociais, mudança do estatuto clássico da visualidade com as técnicas da fotografia, do panorama, do estereoscópio - em suma, Júlio Bressane transcria as estratégias de poder que se articularam a fim de determinar o papel do sujeito moderno (sobretudo da mulher) dentro regime capitalista de produção.
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