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A Festa da Menina Morta


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Publicado em 3 de Outubro de 2008

A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele, 2008, Brasil.

A festa da menina morta, de Matheus Nachtergaele

Na procura por uma representação fílmica que servisse de metáfora para a identidade brasileira, o Sertão, desde há muito, foi o cenário e paradigma corrente entre as narrativas cinematográficas do cinema nacional. O Sertão – com sua seca, seus cangaceiros, seus coronéis, seu povo – ganhou na tela a premissa de representação inconteste do que é o Brasil.

E se, por um lado, ganhamos grandes representações da cultura sertaneja em filmes como Deus e o diabo na terra do sol (de Glauber Rocha) e Vidas secas (de Nelson Pereira dos Santos), tendemos a esquecer que o Brasil é mais amplo, muito embora tenha surgido nos últimos anos um outro forte paradigma: o do cinema de periferia.

A região Norte brasileira parece ter sido esquecida ou, ao menos, pouco representada. Há alguns raros longas-metragens recentes que se debruçam sobre a região amazônica. Mesmo assim, são – em geral – filmes que levam o olhar do “estrangeiro”, do cineasta dos grandes centros. São, na verdade, com os descontos necessários à afirmação, uma representação imbuída de uma olhar antropológico (ou antropofágico). Isso porque é muito limitada ou nula a produção de longas-metragens oriundos do Norte brasileiro.

A festa da menina morta, primeiro filme dirigido pelo ator Matheus Nachtergaele, é um desses exemplos. Por sorte, é um bom exemplo sobre o quão distante estamos da diversidade de nossa própria cultura nacional.

O longa-metragem de Nachtergaele traz consigo o gene desse olhar antropológico. No enredo, uma comunidade ribeirinha, localizada às margens do Rio Negro, se dedica anualmente a um rito um tanto peculiar. Há duas décadas foram achados os trapos das roupas de uma menina morta. O vestido é adorado e uma vez por ano, a própria menina fala pela boca de Santinho, o personagem central da história. Interpretado visceralmente pelo ator Daniel de Oliveira, Santinho é uma espécie de líder espiritual da região, faz milagres (ou pelo menos o povo acredita que ele faz) e dá bênçãos a uma infinidade de pessoas.

Embora os personagens sejam frutos de uma obra de ficção, Matheus Nachtergaele teve como inspiração um ritual pagão que ele próprio presenciou no interior da Paraíba, enquanto atuava em um filme. E assim como no original, a devoção pelas roupas de uma criança morta está apresentada em sua obra com um forte teor sincrético, onde se misturam catolicismo, pajelanças e outras manifestações religiosas.

Em paralelo há a festa. Em meio ao respeito devoto, em meio à crença cega de um povo em busca de algum alento, há a comemoração em torno da casa do Santinho. Embora ele próprio condene o comércio de bebidas, a música e a euforia, a festa atrai a cada ano um número maior de pessoas.

É nessa dicotomia entre o santo e o profano que o filme irá se sustentar. É entre o olhar denuncista (que vê um povo ignorante e carente ao ponto de adorar um vestido rasgado) e o olhar antropológico (que enxerga a beleza de manifestações populares tão distintas como essa) que A festa da menina morta se baseia. Assim, Nachtergaele é capaz de nos apresentar uma obra repleta de poesia. Mas uma poesia calcada na vida comum de uma população simples com pretensões não maiores do que o bem viver.

Porém, dentro da lógica barroca sob a qual o filme foi engendrado, há, em meio à poesia, o que dá asco. É que Santinho e o seu pai (Jackson Antunes) mantêm uma relação incestuosa e, seguindo as influências de Cláudio Assis, diretor de Baixio das Bestas, Nachtergaele não põe muitos panos quentes ao mostrá-los mantendo relações sexuais. Ao contrário, proporciona um longo plano seqüência que, mesmo sem detalhes genitais visíveis, é de torcer o estômago. Aliás, é na relação entre o protagonista e o pai que o filme mais se parece com o cinema do diretor pernambucano, seja pela fotografia dramática, contrastada, assinada por Lula Carvalho; seja pelo uso da câmera em plongée vertical (quando a câmera aponta para baixo).

Mas Nachtergaele, que atuou nos dois longas-metranges do diretor pernambucano, foi perspicaz o suficiente para não deixar que a admiração pelo cinema de Cláudio Assis transbordasse além de algumas referências. Muito embora existam ainda outros elementos que remetam sobretudo a Amarelo Manga, como a seqüência em que matam um porco para a festa, o filme ganha relevo muitas vezes ao não mostrar o que seria mais cruel. Por isso, enquanto o porco sangra até a morte, não vemos a cena em si, mas apenas ouvimos o animal em desespero. Em paralelo, a câmera acompanha Santinho dentro de casa em um longo momento de agonia.

A festa da menina morta, de Matheus Nachtergaele

O personagem de Daniel Oliveira é quase caricato. No intuito de levar à pele de Santinho esses dois mundos em que habita (o profano e o sagrado), vemos um protagonista delicado demais em sua androgenia e bruto demais com sua histeria. Incapaz de meios tons, ele tem rompantes de raiva que chegam no limiar da atuação naturalista. A ausência da mãe, toda a devoção em torno dele ou o tratamento diferenciado que recebe da família, servem de justificativas para a personalidade do protagonista. Entretanto, prestando atenção nas pistas que o filme apresenta, o que acontece com o personagem é uma transformação. Sua agonia é o resultado da dor de ser outro e, talvez, não aquele que o fizeram ser. A festa da menina morta vai minuto a minuto construindo e destruindo sua personalidade, porque lá no fim ele se descobrirá mortal, humano, cheio de dor.

Encarando a história como fantástica (mágica) ou pagã, o caminho segue igual para o personagem. Para ele não importará mais se suas crenças são verdadeiras. Para ele importará apenas descobrir que viver é sentir dor, que seu status de líder religioso pouco importa em seus dramas particulares.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2008

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    2 Commentários sobre 'A Festa da Menina Morta'

    1.  
      Saleyna Borges

      4 Outubro, 2008| 5:55 pm


       

      A Festa da Menina Morta age como bálsamo sobre uma ferida, exposta ao esquecimento e a longitude. Esse brilhante diretor desperta em nós amazonenses a esperança de termos nossa diversidade revelada e respeitada. É um filme que engrandece a cultura brasileira porque ousa ser quem somos verdadeiramente: uma mistura de crenças, sonhos, realidade e magnitude. Engrandece o Amazonas quando revela talentos e mostra ao mundo que não sentimos vergonha de sermos amazônidas-brasileiros.

    2.  

      5 Outubro, 2008| 5:33 pm


       

      Saleyna, obrigado pelo comentário. Um dos grandes méritos da Festa da menina morta é exatamente o respeito com que ele trata a cultura amazônica.

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